"Há tarefas complexas que não podem ser substituídas por robôs"
António Moniz
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Um dos maiores problemas da nossa sociedade prende-se com a responsabilidade de cada um nos actos que praticamos. É sabido que todos os actos que praticamos têm consequências e que portanto cada um tem que saber que é responsável pelos seus actos.
Se na nossa vida particular as coisas se reflectem em geral na esfera da vida pessoal, no campo laboral e no político as consequências podem atingir terceiros.
No âmbito laboral as más práticas são sancionadas legalmente e quem incorra em más práticas sofre as consequências, que podem atingir o despedimento e a indemnização de quem tenha sofrido prejuízos na consequência desses actos.
O que acontece na política é a mais completa impunidade e a falta de responsabilização de quem prejudica claramente os cidadãos e as instituições que tutelam.
Estou farto de ouvir falar em buracos orçamentais, em dívidas de empresas geridas pelo Estado e em sacrifícios para pagar toda esta incompetência, má gestão, ou mesmo gestão dolosa, sem que haja uma só condenação dos responsáveis.
Estou farto dos buracos da Madeira, da RTP, das PPP, do Metro, da TAP, da Carris, e de tantas outras empresas e sectores públicos, até porque não fui eu que nomeei os seus gestores, nem nunca tutelei esses sorvedouros. Porque é que não há responsáveis por tudo isso?
A lógica partidária nunca permitirá a responsabilização dos verdadeiros culpados, mas terá sempre o desplante de me vir cobrar ainda mais para tapar as suas sucessivas asneiras, mantendo o privilégio de impunidade dos seus pares.
É simplesmente uma falta de vergonha ouvir alguém dizer que uma medida, como a aplicação do tal imposto extraordinário, é adequada, quando esse alguém é o representante do sector bancário que tem largas culpas no que concerne à situação económica do país.
O senhor presidente da Associação Portuguesa de Bancos, considerou o imposto extraordinário adequado “perante os maus resultados” penso que do défice. O que diria António Sousa dum aumento imediato das contribuições a aplicar aos bancos, que afinal estão de boa saúde, segundo as suas próprias palavras?
Ao considerar esta decisão de acertada, e ao referir o que fez Ernani Lopes, nos idos de 1983, também nos faz recordar a impunidade dos responsáveis políticos, e não só, que conduzem ciclicamente o país à ruína sem que alguma vez sejam por isso responsabilizados.
O povo trabalhador paga sempre as crises, mas será que para além das más escolhas políticas, o povo contribuiu de mais algum modo para que as coisas chegassem onde chegaram?

Um dos maiores males da nossa sociedade é a fuga às responsabilidades de uma grande maioria das pessoas, independentemente do grau de responsabilidade que tenham.
Nestas eleições o Cartão do Cidadão deu uma barraca monumental e tanto quanto pude ver, ninguém veio a público assumir as suas responsabilidades, não só pelo incómodo causado a muitos eleitores, mas também ao facto de terem ficado sem votar alguns potenciais votantes.
Registei hoje, 24/01/11, que o presidente da maior freguesia portuguesa, ainda teve o descaramento de atirar as culpas para os eleitores dizendo que “… podia ser evitado se houvesse consciência para não deixar tudo para a última hora”.
Futebol – Quem não se lembra da euforia que durou até 2004, em que os responsáveis nacionais tudo fizeram para nos convencer da necessidade de construção de muitos recintos desportivos. Pois bem, eles aí estão, o sucesso do Euro 2004 também aconteceu, mas a factura está por pagar em diversos casos, e pelo menos seis câmaras municipais estão a braços com os encargos da dívida, e o dinheiro terá de sair dos munícipes contribuintes. Alguém conhece os responsáveis? Eles admitem ser responsáveis pelos prejuízos decorrentes das decisões tomadas?
Contabilidades – Todos sabem que há regras contabilísticas que se exigem a cada sector e a cada empresa. Planos de contabilidade existem e são obrigatórios, mas há sempre quem não cumpra e incorra em infracções. Parece que o Ministério da Justiça, sim esse mesmo, tem umas irregularidades nas suas contas, e que não podem ser consideradas meros amendoins, nem se pode dizer que sejam na realidade novidade absoluta, porque o anterior titular da pasta já tinha sido informado. Vamos ver quais são as explicações que aí vêm e quem é que assume os erros.

Anda um fulano por cá durante muitas décadas e, de repente, aparece um senhor que, diz-se, está à frente de um tal de Conselho de Prevenção da Corrupção e faz uma afirmação que me consegue surpreender.
Começo por dizer que só fiquei a saber quem era o presidente do tal organismo, no último parágrafo da notícia do Sol. Depois de pensar bem, consegui lembrar-me que também preside ao Tribunal de Contas, um outro organismo que já concluiu que se gastou dinheiro público em barda, e de um modo mais do que estranho e suspeito, mas até agora não me consta que alguém tenha sido “agarrado” por esse motivo e em consequência dos seus relatórios.
Quando comecei a pôr os poucos neurónios que me restam a trabalhar, voltei ao título e reli “ funcionários públicos terão limite de valor para presentes oferecidos por utentes”. Talvez não acreditem, mas o Tico e o Teco, os tais neurónios que referi, enviaram-me um recado a um local que comanda as minhas estranhas reacções, e desatei a rir desalmadamente, por ter chegado a uma conclusão:
Como os relatórios dos milhões esbanjados está a cargo do Tribunal de Contas, e daí não se conhecem resultados, agora salta para a ribalta o Conselho de Prevenção da Corrupção, que vai divulgar quantos chouriços ou queijos deram a Ti Maria e o Ti Jaquim, para lhes fazerem a entrega do IRS pela Internet, e a quantos anos de cadeia corresponde cada um destes produtos.
Meu caro professor Guilherme d’Oliveira Martins, dedique-se por favor à sua paixão pela História, e abandone estas funções, porque isso de adoptar as tais regras universais, é outra loiça e se assim fosse os seus contundentes relatórios já teriam feito rolar muitas cabeças.
Thomas Antony
Thomas Antony
Finalmente ouvimos pela voz do Procurador-geral da República que “o Ministério Público não está preparado para lidar com crimes económicos e financeiros”. Já o tínhamos concluído pela ausência de resultados, apesar dos mais variados escândalos noticiados nos últimos tempos.
Pinto Monteiro admitiu que o Ministério Público “precisa de ter a humildade de reconhecer que precisa de ajuda”, mas ao falar em “cooperação mais estreita” com o Banco de Portugal, talvez não tenha acertado na ajuda exacta, mas isso é apenas uma opinião.
Os grandes processos, e não era preciso ouvir da boca do PGR, acabam em grandes absolvições, e se o Ministério Público e os Tribunais não saem dignificados com tanta impunidade, o BdP também fica mal no retrato, porque chega sempre tarde, e como entidade fiscalizadora falha sistematicamente.
A impunidade em processos como o BPN ou a operação Furacão, pode vir a ser fatal para a credibilidade da Justiça, porque o Zé Povinho retiraria como conclusão lógica que “os grandes escapam sempre, e que aos pobres cabe só a factura”.

A justiça em Portugal tem dado de si própria uma péssima imagem nos últimos anos. O último reduto de um estado democrático é precisamente a Justiça, e quando ela não funciona, tudo se desmorona ao seu redor.
Foram muitos os casos mediáticos que recentemente foram dados à estampa, e convenhamos que sempre que atingiram figuras conhecidas ou importantes instituições ou empresas, os resultados foram ou insignificantes ou mesmo nenhuns.
Não sei se o defeito está nas leis, se nos executantes, ou até nos interesses atingidos, o que é um facto é que quase ninguém acredita que se faça Justiça, quando os suspeitos são conhecidos ou têm dinheiro para ser defendidos pelos melhores advogados.
Os resultados estão à vista, e infelizmente o descrédito mina os cidadãos que cada vez menos confiam que se faça verdadeiramente Justiça.
