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quinta-feira, outubro 25, 2018

PROBLEMAS DOS VIGILANTES DOS MUSEUS


Os vigilantes dos museus dependentes da Direcção Geral do Património Cultural não surgiram apenas agora que se perfila uma greve da função pública.

Nos últimos anos estes profissionais, que anteriormente tinham uma carreira específica,  foram integrados na carreira de Técnico Auxiliar, uma carreira comum da função pública, que se devia regular pela legislação geral, mas alguém se lembrou que os horários dos museus não eram compatíveis com a generalidade dos serviços do Estado.

A tutela decide então fazer um despacho que pretendia ser de alteração de horários, que desvirtua o que consta na legislação geral, pois transforma os sábados e domingos em dias normais de trabalho, o que se traduz numa clara discriminação dos trabalhadores que desempenham estas funções de vigilantes dos museus, relativamente aos seus colegas da mesma carreira, pois não recebem qualquer pagamento extra pelo trabalho aos fins-de-semana, ao contrário de todos os restantes funcionários.

A injustiça não se verifica apenas nesta discriminação, mas também no trabalho obrigatório na maior parte dos feriados, no trabalho por escalas que são muitas vezes adaptadas às necessidades do serviço sem qualquer respeito pela vida familiar dos trabalhadores, e até a restrições e alterações discricionárias das férias, sempre que há falta de pessoal.

O Ministério da Cultura não tem peso político suficiente para admitir o pessoal necessário para as funções de vigilância dos museus, que esbarra nas Finanças, mas a pressão turística aumenta enquanto o número de profissionais na função diminui por força da idade e das aposentações.

A dificuldade de fixar novos profissionais nestas funções é conhecida pelo ministério, e a solução está obviamente no pagamento previsto na lei do trabalho aos sábados e domingos, e na admissão de mais vigilantes para suprir as reais necessidades dos serviços.

Não se resolvem os problemas sem diálogo, e nem a DGPC nem o Ministério da Cultura têm mostrado abertura para se encontrarem soluções.   



sexta-feira, julho 13, 2018

PROIBIR IMAGENS DE MULHERES ATRAENTES?

A FIFA decidiu proibir as televisões de focarem "as mulheres atraentes" nas bancadas, o que parece ser mais um exagero, daqueles na senda do politicamente correcto.

A beleza, feminina ou masculina, não devia ser alvo de discriminação, e neste caso parece-me que é apenas a feminina que é alvo de censura, não entendo bem porquê!

Os jogadores de futebol fazem inúmeros spots publicitários, e recebem boas maquias por essa publicidade, e não vejo ninguém querer censurar isso. Nas bancadas são focadas crianças a chorar ou a vibrar pelos clubes e selecçções da sua preferência, e não vejo qualquer oposição. Quando surgem mulheres bonitas, ou pelo menos vistosas, lá aparecem os censores dos costumes a impor restrições.

Para onde caminhamos nestas coisas do politicamente correcto?



quinta-feira, fevereiro 01, 2018

POR FALAR EM DISCRIMINAÇÃO



Numa altura em que se fala tanto em discriminação, de género, de cor, de raça, religiosa e sei lá mais de quê, muitas vezes nem damos pela discriminação que nos está mais próxima e à qual nem atribuímos qualquer importância, apenas porque sempre existiu.


Hoje mesmo os funcionários de um serviço público foram impedidos por um soldado da GNR de estacionar no parque que usam todos os dias, que apenas disse que o parque estava fechado, sem mais explicações. O facto não teria qualquer importância, não fosse ter sido autorizado o parqueamento a outros funcionários do mesmo serviço no tal parque interdito.


Por mero acaso soube-se que o agente tinha passado a perguntar se os funcionários eram técnicos superiores, e quem afirmasse ter tal categoria podia aceder ao parque.


Não julguem que este é um caso virgem, porque já o testemunhei pelo menos em dois outros locais, e exactamente nos mesmos moldes. Posso também dizer que há serviços em que mesmo em áreas de trabalho comuns, têm instalações sanitárias só para técnicos superiores, que naturalmente são melhores e mais próximas do que as destinadas aos restantes trabalhadores, que muitas vezes até são as mesmas do público em geral.


Devia haver um pouco mais de vergonha, porque casos destes demonstram um tratamento diferenciado (inferiorizado) a um grupo de pessoas, em razão da sua pertença a determinadas categorias profissionais, e a isso chama-se discriminação.



quarta-feira, maio 10, 2017

MINISTRO DA CULTURA ESPERA UM MILAGRE

Contrariando o espírito do Primeiro-Ministro e a atitude de todos os seus colegas do Governo, o ministro da Cultura determinou que os museus, palácios e monumentos, dependentes do seu ministério, deverão estar abertos no dia 12 de Maio, o que na prática significa que só os Assistentes Técnicos em funções de vigilância, deixem de ter direito a esta tolerância de ponto, excluindo naturalmente os serviços absolutamente essenciais, como sejam as forças de segurança e os serviços de urgência ligados ao sector da saúde, que como se percebe estão sempre de serviço devido à natureza do serviço que prestam.

A atitude do senhor ministro só pode ser encarada como um acto discriminatório para com estes trabalhadores, uma vez que a sua circular nem sequer invoca um motivo relevante, ficando-se pelas "razões de interesse público", que não foram naturalmente acompanhadas por nenhum dos seus colegas.

Errar é humano, mas não reconhecer o erro não dá boa imagem a um ministro da Cultura que consegue ser considerado o pior  ministro deste governo.


terça-feira, janeiro 31, 2017

NÃO À DISCRIMINAÇÃO

Não existe Democracia quando a discriminação contra indivíduos devido à fé ou religião é um facto, e imposta por um decreto presidencial, como o que existe nos Estados Unidos.

Donald Trump até pode ter sido eleito democraticamente pela maioria dos norte americanos, mas convém recordar que Hitler também foi eleito democraticamente, mas o que caracteriza a Democracia não são apenas as eleições mas sim o comportamento de quem detém o poder e o respeito pelas pessoas e pelos direitos humanos.


Quando todos os disparates discriminatórios, relativamente à sua origem ou à sua religião, são justificados pela segurança, convém recordar que o ódio gera mais ódio, e que estas medidas tão contestadas só podem resultar em mais intolerância.


sábado, dezembro 10, 2016

VELHOS SÓ PARA GUIAR?

Não sei quem teve a ideia peregrina de incluir no novo Plano Estratégico de Segurança Rodoviária (PENSE 2020) a medida de fazer com que a revalidação da carta dos condutores com 65 anos ou mais, esteja dependente de fazer uma formação obrigatória.

Por que carga de água é que estes iluminados pensam que um individuo só porque atingiu os 65 anos deixou de estar desactualizado no que respeita aos conhecimentos de condução, ou não reúne condições mentais para a condução?

Este governo presta-se para aumentar a idade de reforma, e esta já se situa acima dos 66 anos, e que me conste não pensou em tornar obrigatória a formação dos funcionários com 65 anos, nem sequer pensou em aliviar a sua carga horária, o tipo de trabalho que desenvolvem, e muito menos faz questão em fazer avaliações médicas (medicina no trabalho), para saber as condições em que estão os seus próprios funcionários.

Será que a avaliação médica obrigatória dos condutores com 50 e mais anos não é suficiente para determinar as capacidades do condutor? Que tipo de formação será indispensável para que um condutor de 65 anos fique mais capacitado para andar nas estradas? Por que é que para conduzir uma viatura seja exigível mais do que para desempenhar um qualquer ofício? Pessoas com mais de 65 anos podem e devem trabalhar, mas talvez não estejam capazes para o acto de conduzir um veículo motorizado?


A pergunta mais interessante que hoje ouvi, foi se Marcelo Rebelo de Sousa estará capaz para desempenhar o cargo ou se necessitará de alguma formação obrigatória… 


sexta-feira, junho 29, 2012

HÁ DIFERENTES EUROPAS

Ao longo dos anos tenho vindo a questionar a Europa onde os nossos políticos nos integraram (?), sem nunca ter-mos sido consultados via referendo. Dizem-nos que estar na União Europeia é bom, que beneficiamos de uma moeda única forte, e da solidariedade dos nossos parceiros, mas será que isso é mesmo assim tão benéfico para Portugal? 

As dúvidas colocaram-se desde o princípio, porque a convergência nunca se verificou, e as assimetrias continuaram a existir apesar de todas as promessas. A perda da moeda própria, sabe-se hoje, teve consequências bem notórias em tempos de crise, como os que vivemos. 

A solidariedade entre os países da União é talvez o factor mais questionável. As ajudas económicas, a que chamam planos de resgate, não passam de empréstimos muito bem remunerados que são concedidos em troca de perda de soberania. 


Esta Europa em que os países são tratados de maneira diferente em problemas da mesma natureza, não é a Europa que nos prometeram, e que nunca nos permitiram referendar. Talvez agora todos percebam porque nos impediram sempre de dar a nossa opinião. 

Eu recuso-me a fazer parte de uma comunidade em que os meus direitos são inferiores aos de outros parceiros.

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 Herói

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By Palaciano

By Palaciano

sábado, julho 24, 2010

SIGILO PARA GRANDES TRAFULHAS

A obrigação de os bancos comunicarem ao fisco os juros das contas dos cidadãos é uma violação grosseira do sigilo bancário porque só pretende monitorizar efectivamente uma parte dos cidadãos e não a totalidade.

Eu compreendo que o Governo venha dizer que esta norma dispensava a audição da Comissão de Protecção de Dados, porque se calhar tinha que dizer claramente que não é por causa dos impostos que o fazia, já que a cobrança do imposto sobre os juros é da responsabilidade dos bancos, mas apenas para apanhar alguns beneficiários de apoios sociais que possam ter juros de uma qualquer conta a prazo resultante de rendimentos de melhores tempos. Temos nestas condições desempregados e até idosos, cuja vida por algum motivo se complicou nos últimos tempos.

Ao dizer-se que esta medida deriva “da legitimidade do Estado para verificar se os apoios sociais são ou não devidos”, clarifica-se exemplarmente que na mira do fisco está apenas uma pequena parte dos cidadãos, transformando esta informação num instrumento de tratamento discriminatório.

Se me permitem, porque é que se a medida é legítima não é usada para investigar o enriquecimento ilícito, ou sem suporte em rendimentos declarados? Assim talvez eu e muitos outros que criticamos esta derrogação do sigilo bancário, aplaudisse-mos a ideia das Finanças.



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O pior cego é aquele que não quer rever by Rodrigo

MÚSICA

domingo, julho 19, 2009

OBVIAMENTE, DEMITA-SE!

Há limites para a ignorância e esses são em regra ditados pela ausência de formação académica, que podem, e friso o podem, justificar atitudes que não são admissíveis a pessoas que tiveram acesso à educação que habilita qualquer pessoa a descodificar a informação de modo a não formular disparates.

Ouvir dizer que o Ministério da Saúde proibiu os homossexuais de doarem sangue, deixou-me a impressão de que a imbecilidade estava à solta nas instituições que deviam cuidar da nossa saúde e não dos costumes e inclinações sexuais de cada um. O nome estava na notícia do CM de 17/07, e era o de Gabriel Olim, director do Instituto Português de Sangue.

Na notícia, entretanto desmentida por uma senhora grega, que suponho ser comissária europeia de assuntos da saúde, pelo menos no que se refere a recomendações daquela instituição comunitária, fala-se em comportamentos de risco para justificar a incompreensível proibição.

Não costumo vestir a pele dos justiceiros de ocasião, mas penso que a única atitude sensata deste senhor director era a de pedir a demissão, porque há atitudes que não se podem ter em certos cargos e conceitos que não podem ser defendidos por quem abraça o serviço público, como seja a discriminação, seja ela de que tipo seja.



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By FullFrame.no

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Mike Keefe

Joe Heller

quinta-feira, janeiro 31, 2008

MUDANÇAS, OU TALVEZ NÃO!

Na política por vezes diz-se que é preciso mudar, para que tudo fique na mesma. Não pretendo ser cínico nem precipitado, mas tão pouco estou distraído deixando passar algumas informações que são públicas.
Foi feita uma pequena remodelação, aliás ainda há mais uns ajustes a decorrer, mas logo surge a afirmação de que a política seguida até agora vai ser continuada pelos novos ministros. Depois surgem umas quantas palavras para desmobilizar os protestos, admitindo José Sócrates que não é insensível às pessoas nem às suas queixas, e admitir até que não haverá mais encerramentos de urgências sem alternativas.
Uns podem ficar confusos com estas contradições, mas é natural que haja um interregno, facilmente explicável pelo tempo necessário para os novos ministros conhecerem os cantos à casa (chamam-lhe dossiers), mas tudo voltará ao mesmo, pois o responsável dessas políticas continua a ser o mesmo, o 1º ministro.
José Sócrates revelou mais uma vez a sua arrogância e irritação, acusando o PSD de “aproveitar sentimentos primários das populações”. Ainda não entendeu o senhor 1º ministro que as populações não são assim tão manipuláveis, e que os apupos e as manifestações contra a política do governo são apenas manifestações de desagrado evidente com o rumo das coisas. Por favor não nos chame tolos!
A guardo com alguma expectativa, para ver como vai a nova ministra da Saúde compatibilizar as suas declarações proferidas antes de o ser, com a continuidade das políticas de Correia de Campos, e também quero ver como é que o novo titular da pasta da Cultura vai conseguir gastar menos e melhor, com a absoluta centralização dos meios existente, e sem alguma autonomia responsável, como foi o rumo traçado pela sua antecessora com o beneplácito de José Sócrates.
Estaremos cá para comentar as cenas dos próximos capítulos.


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PORTADORES DE HIV - DIFERENÇAS E OPORTUNIDADES


Todos nós podemos ser portadores de HIV ou termos, entre os mais próximos, alguém que o seja.
Quando tal acontece sabemos bem o valor da informação que nos permite lidar com esse problema de saúde e, também, com as representações sociais sobre a doença.
A entrevista que a seguir se publica é um testemunho vivo que toca e que dói.
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Lídia - As pessoas com sida estão em desigualdade de oportunidades em relação às outras pessoas?
Raul - Vamos considerar quando fala em pessoas com sida pessoas infectadas pelo HIV, pois Sida é o último estágio no avanço da doença e essas pessoas, estão muito debilitadas normalmente. Claro que estão em desvantagens em todos os aspectos quer a nível de trabalho, quer empréstimos quer seguros de vida. A máscara continua a ter que ser usada e o engenho de cada um tem de ser usado para contornar estes obstáculos.
Lídia - Há maiores dificuldades a nível de emprego, escola e participação em actividades de grupo?
Raul - Uma das maiores preocupações de qualquer infectado que tenha um emprego estável o qual lhe permite viver confortavelmente, é o medo de perder esse emprego devido à sua condição de infectado pelo HIV. Normalmente as grandes empresas pedem check-ups anuais ou de dois em dois anos, aos seus funcionários. Dos diversos testes que pedem um deles é ao HIV, o qual é aterrorizante para quem sabe que está infectado e sabe que tem de fazer o teste daí a uns tempos. Depois nas próprias instituições ouvem-se conversas sobre sida (as pessoas não sabem que o colega está infectado) que são autênticas aberrações e mostram o que realmente a sociedade pensa acerca da doença. O pobre desgraçado ouve aquilo como um escárnio sobre ele, só que não se revela porque não é louco, precisa de trabalhar e está amedrontado. O stress é grande acredite. Soube do caso do cozinheiro despedido pelo grupo Sana? A justiça ainda deu razão à entidade empregadora não obstante haver relatórios científicos que atestavam a infecção pelo HIV não ser perigosa no desempenho das suas funções e não haver risco para os clientes do hotel. Mas há mais …muitos mais casos. Nas escolas certamente tem lido e os leitores também, os problemas que os pais das outras crianças levantam quando sabem haver na escola uma criança seropositiva ao HIV. Nas actividades de grupo não vejo dificuldades. Ou estou em grupos dedicados à Sida e outras DSTs (Doenças sexualmente transmissíveis) e aí estou à vontade, ou então nos outros grupos não vejo necessidade de revelar a minha condição de infectado.
Lídia - Sente preconceitos da sociedade em relação a esse tipo de doença?
Raul - Directamente não, mas eu não revelo a minha condição de infectado excepto em casos em que isso é necessário. A minha família sabe, as pessoas envolvidas de qualquer maneira na problemática da Sida com as quais tenho contacto sabem, os meus amigos infectados e pouco mais. Não tenho que publicitar a minha doença, assim como não o tenho de fazer em relação à minha orientação politica, ao clube de que gosto ou mesmo preferências sexuais. Se o tiver que fazer faço-o com o mesmo à vontade. Para os contactos comuns o meu problema de saúde é uma insuficiência hepática e agora recentemente problemas cardíacos. Não estou mentindo sequer, só que não sou obrigado a dizer que a minha insuficiência hepática é devida á toxicidade de medicamentos que tomei para o tratamento da SIDA.. Estou ligado também a doenças comuns em infectados pelo HIV, como a hepatite C e as tuberculoses multi resistentes e isso não quer dizer que seja tuberculoso ou tenha a hepatite C ou outra qualquer doença. Agora em relação à SIDA e aos preconceitos da sociedade em relação à doença eles existem, e a prova disso são os casos que acontecem diariamente, alguns mesmo vindos de entidades governamentais responsáveis que vão alimentando a fogueira da discriminação, exclusão social e do estigma.
Lídia - O que acha que deve ser mudado a nível de mentes?
Raul - Disse-me que não entende muito de informática. Mas é necessário formatar o disco e colocar tudo de novo. Os erros do passado deixaram marcas profundas e é um trabalho gigantesco mudar as mentalidades. Se todos actuarmos e tivermos o apoio das entidades governamentais a pouco e pouco as coisas podem mudar. Um dos trabalhos era o governo apoiar palestras nas escolas com crianças mesmo antes de estas iniciarem a sua vida sexual activa. As crianças podem levar essas informações para os pais em casa. Era uma maneira de aproveitar o Know how da comunidade infectada e ao mesmo tempo dar-lhes a possibilidade (aos infectados) de com esse trabalho arranjarem um meio de subsistência. O saber e a experiência de muitos infectados torna-os em peritos altamente qualificados nessa matéria. Depois a frente de combate não pode ser só na desmistificação da doença. Temos de actuar cada vez mais na prevenção, para evitar novas infecções. Os comportamentos têm de mudar, e nunca é demais lembrar que a SIDA existe. A educação em relação á doença tem de passar pela informação e não pelo medo. A Sida não é o Papão com que se assustavam as criancinhas, aplicado a todo o povo menos informado.
Lídia - E de apoios estatais?
Raul - Apoio social a nível do infectado ou a nível de associações que trabalham nesta área? A nível de infectados há um apoio para ajudar na renda de casa, água e electricidade. Os assistentes sociais dizem desconhecer essa lei e que essa verba existe. É difícil de conseguir essa ajuda e podem-se contar pelos dedos da mão as pessoas que a nível nacional a recebem. Só com muitas cunhas dizia-me há tempos um feliz contemplado. A nível de associações o estado ajuda em alguns projectos. Mas as coisas estão difíceis e cada vez é mais complicado as associações receberem essas verbas. Quanto aos critérios para a atribuição dessas verbas e aos projectos aprovados e à sua utilidade na ajuda aos infectados, tenho uma opinião, mas não me vou pronunciar sobre ela nesta entrevista, desculpem-me.
Lídia- O que lhe falta?
Raul - Falta-me terminar o meu ciclo de vida e morrer. Até lá falta-me a segurança que me garanta a subsistência alimentar e de tecto que até hoje ainda não faltou. Note-se que nunca recebi qualquer subsidio ou apoio estatal, ou de qualquer outra instituição de apoio social. Também nunca o pedi até hoje.
Lídia - O que mudou na sua vida?
Raul - Morri e voltei a nascer, talvez seja a frase certa para ilustrar as mudanças. Na altura em que fui infectado sabia que a SIDA existia, e a minha noção acerca da doença era que matava rapidamente, e que bastava apanhar-se uma simples gripe que ela nunca mais curava e acabava por matar a pessoa infectada. Sabia que havia um medicamento chamado AZT, para a tratar mas via esse medicamento em botijas de alguns litros que era aplicado com internamento hospitalar tipo soro ou sangue nas veias. Via o tratamento da SIDA num cenário aterrador de dor e sofrimento. O meu retrato robot de uma pessoa com SIDA, era visualizado mentalmente como a figura de alguém andrajoso com feridas na cara e nos braços. Foram as imagens passadas ao mundo desde o inicio e que ficaram em memória. O quanto eu estava errado e essa minha ignorância no passado faz com que hoje compreenda o que muitas pessoas pensam acerca da SIDA. Ao saber que estava infectado, o impacto da doença mudou completamente a minha vida. É complicado aqui descrever tudo o que fiz. Sentia necessidade de ver outros infectados falar com eles, queria aprender …aprender…aprender… a como viver com a SIDA. Tinha um encontro obrigatório com a morte que ia adiando sucessivamente um mês, seis meses um ano. Ia estabelecendo metas antes de me entregar. Os meus filhos estavam no secundário ainda e não estavam preparados para a vida, essa era a minha maior preocupação. Fui negociando e adiando a minha partida. Os filhos acabaram o secundário depois acabaram a faculdade, a filha casou, já tenho um neto e a vida continua. Após 11 anos de infecção, não sei quantos anos irei viver mais, mas não estou preocupado com isso. Um dia hei-de morrer mas não tenho pressa. Se analisar a SIDA na minha vida até que nem foi tão má assim. Tive tempo para parar, pensar e saber o quanto gosto de viver. Passei a ter mais amor pelo meu próximo e a gostar mais de mim mesmo. Dediquei a minha vida à causa da SIDA e não quero parar de lutar. Sei o que sofri e sei o que cada um sofre quando sabe o resultado do teste. Não há necessidade para esse sofrimento e é por isso que estou aqui tentando dar uma ajuda a quem precisa dela. A minha vida só tem sentido enquanto houver pessoas que precisam de mim. Não tenho raiva da SIDA, ela ajudou-me a crescer como ser humano. Embora pareça um absurdo, acho que lhe estou agradecido por me ter feito acordar para a realidade da vida.

Para mais informações consulte:
SIDADANIA - http://sidadania.blogspot.com/
Retirado do blog MOENDO CAFÉ - http://moendocafe.blogspot.com/

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FOTOGRAFIA - A MOSCA

Smolkov

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