sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A MÁ IMAGEM

Quando falei da imagem que os turistas têm, em geral de Portugal depois de o visitarem, afirmei que a sua opinião normalmente é mais favorável à partida do que à chegada. Estava a falar dum grupo específico, instruído entre os 18 e 55 anos e da classe média, portanto com algum poder de compra.
Hoje venho falar de pessoas da classe alta, com grande poder de compra, cosmopolita e ligadas aos meios empresariais e financeiros, que em geral não estão muito interessados no país real, não frequentam os locais onde se sente o pulsar da vida do quotidiano e não têm tempo para descobrir o que quer que seja. Em concreto refiro-me aos tecnocratas da OCDE e à analista da Economist Intelligence Unit que emitiram opiniões sobre a economia de Portugal.
A OCDE pronuncia-se “sempre” com base em relatórios e estatísticas elaborados pelos governos e outras instituições financeiras. Em documentos deste tipo tudo pode ser transformado em gráficos mais ou menos complexos mas que dependem apenas de contas exactas e de certezas para quem os elabora. No caso de Portugal, onde a riqueza está muito mal distribuída, onde a economia paralela atinge números na ordem dos 15 a 20% e o incumprimento das obrigações fiscais é alto, toda a matemática é falseada, e as receitas sugeridas roçam o disparate para não dizer a ignorância completa dos indicadores reais.
A analista do The Economist, que dizem veio a Portugal como convidada, vem falar da flexibilização do mercado do trabalho, desconhecendo a realidade e os esquemas consentidos pela justiça lenta e pouco eficaz, que permitem despedimentos a torto e a direito neste jardim à beira mar plantado. Para não ser deselegante, direi que leu alguns cabeçalhos de jornais económicos portugueses, pertencentes a grupos económicos nacionais.
Só a ignorância da realidade pode explicar disparates como a proferida por um comissário europeu do comércio – “Salários baixos temporários apoiam o desenvolvimento económico do País”. O senhor comissário não sabe que os salários demasiado baixos são uma constante há anos e que o desenvolvimento depende mais do investimento e da inovação do que da mão-de-obra barata.
Será que um destes dias, ainda é convidado mais um especialista para concluir que o País pode desenvolver-se ainda mais se a escravatura for admitida? Já quase só falta isso!
Sugestão de leitura:
http://leruisseau.iguane.org/article.php3?id_article=11


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FOTOS

Sacré-Cœur

Revendo fotos de Paris, importa lembrar a música de Edith Piaf. Aqui fica uma sugestão para ouvir ... e ver - A quoi ça sert l’amour – Edit Piaf
http://www.youtube.com/watch?v=_IivEGxl8qU&eurl=



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CARTOON

2 comentários:

Joca disse...

Obrigado pela música e pelo filme, muito interessantes. O link para a página em francês é óptimo, pelos vistos os franceses també estão com a OCDE atravessada.

Manuel Fernandes disse...

Há vozes que nos ficam na memória e Piaf, apesar de não ser exactamente do meu tempo, ficará sempre na minha.