É muito aborrecido ouvir no mesmo dia, o ministro dos Negócios Estrangeiros português dizer que não houve qualquer pressão do governo da China quanto à visita do Dalai Lama, e um representante desse mesmo governo expressar o seu desagrado pelo tipo de recepção que o Parlamento português lhe vai dar. Infelizmente, para Luís Amado, ainda está bem presente na memória dos portugueses o que se passou na última visita do Nobel da Paz a Portugal.
O que já foi apelidado de “real politik” por alguns comentadores, infelizmente bastante comum nos países ocidentais, não é mais que a demonstração do que é evidente há alguns anos, a subordinação do poder político e dos princípios em relação aos poderes económicos.
Este episódio não me mereceria muitas mais palavras, se a sua origem, a que acabei de aludir no parágrafo anterior, não estivesse a afectar radicalmente toda a civilização ocidental. Para que todos se possam situar nesta questão, recordo-vos que há algum tempo foi celebrado, e elogiado, um acordo pela Organização Mundial do Comércio com a China, abrindo ainda mais as fronteiras ao comércio com este gigante oriental. Falou-se abundantemente das vantagens económicas, do mercado potencial que é a China, e nos preços dos produtos que iriam baixar. Um discurso inteligente para qualquer sociedade de consumo, sem qualquer dúvida.
Mas deste acordo tão celebrado, haviam também muitos outros aspectos que não foram devidamente valorizados, intencionalmente, penso eu. Os direitos humanos naquele país continuam a ser violados, e não me refiro apenas às liberdades. O que dizer das condições laborais dos trabalhadores chineses?
É lá longe, é um assunto interno da China, pensaram muitos. Pois é, mas as consequências não tardaram, e muitas ainda estão a acontecer, mas são atribuídas à “conjuntura económica”. As fábricas foram fechando, o desemprego aumenta a olhos vistos e a economia europeia não cresce de modo a compensar os factores negativos. Acham pouco? É que há mais. Os direitos laborais “evoluíram” ou “adaptaram-se” segundo alguns, para a precariedade e para a desregulamentação “para permitir a competitividade”. Traduzindo por miúdos, ou aceitam as condições impostas ou o poder económico ameaça descaradamente com a deslocalização das empresas para outras paragens onde os trabalhadores não têm direitos.
Tudo isto a propósito da visita do Dalai Lama a Portugal e pela postura do governo português, dirão vocês. É, meus amigos. Por vezes são os pormenores que nos fazem reflectir mais.
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