domingo, outubro 26, 2014
PINHO E O BES
domingo, agosto 21, 2011
TEXTO D'OUTREM
..."Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que foi victima o mais bello gato de sua magestade!
Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da real camara a raparem-o á escovinha.
Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja, sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais abstinentes e mais respeitosos, o camareiro—dizemos—acceso em zelo pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!"
Excerto de "As Farpas"
segunda-feira, agosto 15, 2011
AS FARPAS
O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871
Nota: As Farpas foram um novo conceito de jornalismo, com ideias, de crítica social e cultural.
sábado, maio 21, 2011
RAPIDINHAS
Salários baixos – É sempre interessante registar a utilização de expressões populares para se passar mensagens de uma forma eficaz. Nicolau Santos utilizou no Expresso de sábado a expressão em inglês “If you pay peanuts, you get monkeys”, para passar a ideia de que bons profissionais devem ser bem remunerados. Concordo com a ideia, mas não partilho uma opinião tão estreita, pois para mim a expressão aplica-se a todos e não apenas aos gestores.
Taxa Social Única – No auge da discussão sobre a diminuição da TSU, que já se sabe que vai afectar a nossa Segurança Social, o que torna a medida odiosa e perigosa, eis que mais um guru da finança nacional resolve tirar um coelho da cartola. Segundo Daniel Bessa era mais fácil e mereceria o aplauso do FMI, do BCE e da Comissão Europeia, aumentar o horário de trabalho em duas horas semanais. Raios partam os discípulos da senhora Merkel, que preferem ignorar a realidade e continuam a insistir na mão-de-obra barata em vez de pensarem em termos de eficácia e inovação.


