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domingo, setembro 13, 2015

MOUZINHO DE ALBUQUERQUE (parte 2)



A exemplo do que já havia sucedido ao aportar na Madeira, ao chegar a Lisboa na manhã de 14 de Dezembro, e como acontecia normalmente com os regressos vitoriosos dos corpos expedicionários a África, tem uma recepção apoteótica, a maior de sempre, à maneira dos antigos generais de Roma, com o povo em massa nas ruas a aclamá-lo, em ambiente de fervor patriótico poucas vezes visto na História de Portugal.

Mouzinho vem para terra a bordo da galeota real com os ministros da Guerra e da Marinha, que tinham ido ao navio apresentar-lhe cumprimentos. O rei D. Carlos, fardado de generalíssimo, espera-o pessoalmente e abraça-o no cais de desembarque do Arsenal da Marinha, com a rainha D. Amélia e os príncipes também presentes. O rei não deixa curvar-se perante si. Enquanto uma multidão dá vivas ao herói ao som de música e foguetes-

Os jornais lançam números extraordinários, publicam versos em sua honra, estudam a sua genealogia, publicam e republicam fotos suas, dos seus camaradas de África, do Gungunhana e de outros régulos que derrotou, saem anúncios publicitários das melhores lojas e armazéns de Lisboa, que se colam àquela história de sucesso.

No paço, o soberano ofereceu-lhe um jantar de honra, de 215 talheres, em que serviu a magnífica baixela Germain, que só se usava nas solenidades excepcionais. Mouzinho senta-se à direita da rainha D. Amélia e, aos brindes, D. Carlos saudou-o com uma calorosa admiração e um profundo reconhecimento pelos seus feitos em África.

(Continua)



quarta-feira, setembro 09, 2015

1895 - PRISÃO DE GUNGUNHANA

A notícia da captura de Gungunhana chegou a Lisboa quando o prisioneiro desembarcou em Lourenço Marques (actual Maputo).

O “telegrama importante” desse dia 4 de janeiro de 1986, enviado ao secretário particular do rei, chegou logo ao DN: “Peço honra apresentar com minhas homenagens, entusiásticas felicitações a sua majestade pela prisão de Gungunhana e seu filho Godide, levada a efeito pelo valente Mouzinho.” Em março, o jornal anotou no dia da sua chegada “à vista em Cascais”: “O Gungunhana chega a Lisboa numa sexta-feira 13, dia de bem mau agouro para ele, posto que de ótimo auspício para nós.”

Gungunhana, mítico imperador de Gaza, foi capturado a 28 de Dezembro de 1895 num ataque surpresa das forças comandadas por Mouzinho de Albuquerque à povoação sagrada de Chaimite. A operação culminou um ano de combates – Marracuene, Magul, Coolela – por tropas expedicionárias enviadas para Moçambique com o objectivo de capturar o chefe tribal dos vátuas. Essenciais nessas vitórias foram as novas armas de repetição – espingardas e carabinas com capacidade para oito tiros de calibre 8mm – e a táctica do quadrado, evitando a luta corpo a corpo com os temíveis guerreiros vátuas e concentrando o poder de fogo. A decisão de derrotar o Leão de Gaza reflectiu o endurecimento da política portuguesa no quadro das chamadas campanhas de conquista e pacificação, iniciadas uma década antes. Gungunhana ascendeu ao trono em 1894, ano em que a Conferência de Berlim dividiu o continente africano entre as potências coloniais. Com a ênfase posta no direito de ocupação, cresciam as pressões sobre os territórios de Portugal na África Austral. Na sequência da sua proposta do Mapa Cor-de-Rosa, ligando Angola e Moçambique, a Inglaterra contrapôs em 1890 um ultimato: ou Lisboa abandonava o projecto ou entrava em guerra com Londres. Gungunhana jogou com essa rivalidade para manter a independência de um império que sofria a pressão invasora dos europeus. Essa mesma pressão de ingleses e alemães, que levara Lisboa a defender a pacificação dos seus territórios pela via militar, acentuou-se em Moçambique após o acordo de fronteiras estabelecido em 1891 com a Inglaterra e que deixara Gaza dentro daquela colónia. A recusa de Gungunhana em assumir-se como súbdito da coroa portuguesa, a par dos ataques contra colonos e povos locais sob protecção de Lisboa, levaram Mouzinho de Albuquerque para Lourenço Marques com o objectivo de o eliminar. A sua captura permitiu recuperar da humilhação causada pelo Ultimato britânico, sendo alimentada nas décadas seguintes como ato heróico do oficial de cavalaria – embora vozes isoladas o qualificassem como crimes de guerra pelas leis castrenses de então. Gungunhana, enviado para Lisboa, viu-se passeado – com as sete mulheres, escandalizando os católicos – e exibido para gáudio de todos. Deportado para os Açores, foi convertido, alfabetizado e integrado na sociedade da Terceira, onde morreu 11 anos depois (1906). Em 1985, o agora herói da resistência moçambicana foi trasladado para a Fortaleza de Maputo – onde está a estátua de Mouzinho erigida na antiga Lourenço Marques.

MANUEL CASTRO FREIRE


Nota: Este texto foi retirado do DN de 30/07/2014

Gungunhana e suas sete esposas em Lourenço Marques actual Maputo ( Foto de The Delagoa Bay Review)