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quinta-feira, agosto 25, 2011

RAMALHO ORTIGÃO

…A gente rica veste os seus filhos de veludo, com meias de seda e plumas no chapéu. Há tipos calabreses, escoceses, marinheiros, boleeiros... A gente pobre, que não pode adoptar integralmente os modelos consagrados na mascarada das crianças burguesas, veste os seus pequenos de cães sábios. – O que é de uma iniquidade verdadeiramente horrível, porque, enfim, ninguém pode evitar que os nossos filhos sejam os herdeiros forçados das nossas enfermidades e das irregularidades das nossas feições, mas é demais abusar dos direitos da paternidade até ao ponto de converter uma criaturinha graciosa e simpática no cabide irrisório das depravações artísticas do nosso gosto!

Ide ver as crianças, como nós as temos visto, aos domingos de tarde no passeio da Estrela ou em S. Pedro de Alcântara. Lá encontrareis os meninos vestidos de colegiais franceses, de guardas-marinhas ou de empregados do caminho de ferro, de postilhões, de huguenotes, de puritanos, e, sobre isto, as compósitas das toilettes de capricho, em que o hediondo toma profundidades de expressão prodigiosamente alucinantes: as botas cor de pulga com atacadores encarnados e biqueiras de verniz, chapéu de palha atado por baixo da barba com um laço de fita, vestido verde e paletó encarnado, coisas medonhamente semelhantes ao trajo de um macaco que dança ao som de um realejo…

In “As Farpas” – Os nossos filhos, em casa, na rua, no passeio, no liceu, no colégio, Outubro de 1871


FOTOGRAFIA


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