sábado, novembro 25, 2017

COMO (NÃO) CUIDAR DO PATRIMÓNIO



O caso do jantar no Panteão já tinha sido infeliz, e tinha sensibilizado a opinião pública para as más práticas que advinham do aluguer de espaços em edifícios classificados como museus e monumentos, mas na altura estavam apenas (?) em causa questões de dignidade dos espaços, mas não eram apenas esses que nos deviam preocupar, pois sempre estiveram também em causa problemas de uso e conservação, que também podem decorrer da ligeireza (necessidade afirmam alguns) em fazer estas cedências de espaços.

Agora veio a público um jantar no Palácio Nacional da Ajuda, e ilustrado com fotos bem elucidativas de más práticas, desde logo porque o número de convivas era demasiado elevado para o espaço cedido, o que devia ter inviabilizado desde logo a sua realização.




Algumas frases atribuídas à assessoria da direcção do Palácio Nacional da Ajuda e/ou ao conselho de curadores do Museu de Arte Antiga é que me deixaram furioso com tudo isto. Pretender que o facto de se verem pratos colocados nos corrimões, mesas de catering “perigosamente juntas aos frescos e tapeçarias” e convidados fotografados “encostados e sentados na parte lateral de um coche secular” eram resultado de haver vigilantes em número insuficiente, é para rir, porque quem autorizou a realização, e determinou a colocação das mesas e de todo o material de apoio, bem como o que se iria passar no decorrer da festarola, foram com toda a certeza técnicos superiores do palácio, e nunca vigilantes, que muitas vezes nem são autorizados a estar nos espaços onde decorrem os eventos.


Sacudir a água do capote é coisa que está na moda, mas é patético estar sempre a bater nos mais fracos quando as coisas dão para o torto, e neste caso, como em muitos outros, os responsáveis não se podem esconder atrás dos subordinados que só obedecem a quem manda.


 

quarta-feira, novembro 22, 2017

EFEITOS DA SECA NO GOVERNO

Depois do Porto ter perdido a corrida para a agência europeia do medicamento, o governo de António Costa decide mudar o Infarmed de Lisboa para o Porto.

Não houve nenhum anúncio anterior, nenhuma negociação com os trabalhadores ou com os sindicatos, e nem os deputados sabiam desta decisão, o que torna esta coincidência no tempo muito estranha, pois mais parece uma medida de compensação.

O argumento da descentralização é ridículo, pois o interior, nesse caso, devia ser a escolha óbvia, e Coimbra seria uma opção bastante provável. 

Depois da trapalhada com os descongelamentos das progressões dos professores, agora veio a mudança do Infarmed, e parece que vem aí a risível taxa da batata frita com a Ana Malhoa e o Jorge Jesus como cabeças de cartaz.

Este governo anda mesmo a pedir chuva, pois a seca anda a afectar-lhe o discernimento...


domingo, novembro 19, 2017

CULTURA - PALAVRAS DA SEMANA



“Eles (os museus) existem para guardar, preservar obras de arte, para desenvolver um conhecimento e uma investigação sobre elas. E depois para partilhar esse conhecimento com uma sociedade. Mas hoje invertem-se as coisas e pensa-se que os museus existem para haver público. Há uma lógica de consumo e do mercado que leva a que os museus passem a ser instrumentos de um turismo cultural e de uma industrialização da cultura que está em curso no nosso mundo, facilitada pelas viagens, cada vez mais possíveis. Isto leva a que o público dos museus seja o turista, que muitas vezes está mais interessado em fazer uma selfie e em dizer que esteve no museu do que em ver aquilo que ele exibe ou em confrontar-se com aquilo que ele apresenta.”

João Fernandes, antigo director do Museu de Arte Moderna de Serralves e actual subdirector do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia de Madrid (Expresso 18/11/2017).



sexta-feira, novembro 17, 2017

MAFRA 300 ANOS

Comemora-se hoje o Tricentenário do lançamento da 1ª pedra do Palácio Nacional de Mafra, monumento grandioso que mostra uma grandiosidade passada, e uma série de fraquezas do presente.

Imagem da construção do Palácio de Mafra 

Imagem antiga do Palácio de Mafra

Os dois carrilhões estão calados há anos...

O Museu de Escultura Comparada está fechado há mais de 50 anos

segunda-feira, novembro 13, 2017

PÚBLICOS E PATRIMÓNIO



Aproveitando a visibilidade dada pelo caso do jantar no Panteão Nacional, penso que convém assinalar que o Património não tem apenas que ser dignificado, até porque existem outras vertentes a que é necessário dar a devida atenção se queremos cuidar verdadeiramente do Património.

É sabido que a conservação dos museus, palácios e monumentos necessita de investimento, que é insuficiente como se sabe, e que a sua preservação depende de todos nós, porque é insubstituível.

O investimento depende de todos, através dos impostos e das receitas arrecadadas com bilheteiras e lojas, pelo que dependem não só de políticas mas também de visitas aos museus.

A preservação dos edifícios e das colecções dependem não só de quem cuida do Património, mas também de quem o visita, que por vezes não se comporta devidamente, por ignorância, ou por falta de civismo.

Muitos de nós pensamos que o público que visita museus e monumentos se comporta devidamente, e isso é válido em boa parte dos visitantes, mas infelizmente ainda há muita gente que não se sabe comportar devidamente, e os períodos da gratuitidade (domingos e feriados pela manhã) são um verdadeiro pesadelo para quem lá trabalha, ainda que não seja apenas nesses períodos que os maus comportamentos se verifiquem.

Um jantar no Panteão pode ser mais inofensivo do que um qualquer visitante com  uma conduta reprovável.



sábado, novembro 11, 2017

EVENTOS E PATRIMÓNIO



O jantar (ou banquete) realizado no Panteão Nacional em que participaram participantes da Web Summit, mereceu o repúdio de António Costa, de Marcelo Rebelo de Sousa e uma tomada de posição do ministro da Cultura, que diz pretender alterar o Regulamento de Utilização de Espaços dependentes da DGPC.

Este tema das cedências de espaços em edifícios sob a alçada do ministério da Cultura, e não só, não é novo e já foi tema de polémicas, de suspeitas e de denúncias de irregularidades, sem contudo se conhecerem consequências.

Umas filmagens em Tomar deram brado, cedências de espaços nos Jerónimos foram alvo de denúncias e de suspeitas, a exposição de carros eléctricos no Museu dos Coches foi alvo de muitas críticas, e até no Museu da Presidência houve suspeitas de irrecularidades.

Dentro do meio dos museus e monumentos existem muitas conversas sobre algumas cedências de espaços e das pessoas que para elas são destacadas, pois só estão regulamentados os valores dos pagamentos ao pessoal de vigilância, sendo que nem sempre são esses os destacados para esse trabalho, desconhecendo-se como serão compensados os não normalmente afectos à vigilância.



quinta-feira, novembro 09, 2017

O DEFENSOR DO STATUS QUO

Os sistemas de Segurança Social e as políticas fiscais e de Justiça do mundo ocidental têm sido postas em causa, não só porque falharam em muitos casos, estão em colapso noutros e não resolveram as desigualdades, que até aumentaram, e muito.

O Rendimento Básico Incondicional é apenas mais uma ideia que está a ser testada em países nórdicos, e que até tem recolhido opiniões positivas de bastantes sectores, mas pelos vistos o ministro Augusto Santos Silva acha que é um modelo “contra-intuitivo”.

Quando os defensores deste modelo afirmam que traria justiça social e um mínimo de segurança, bem como a emancipação e a liberdade de fazer escolhas (de empregos, por exemplo), Santos Silva acena com a intuição de que o modelo actual é mais aceite (?) e mais justo. Terá acrescentado ainda que defendia também o microcrédito, recordando Muhammad Yunus.

O senhor ministro não conseguiu fazer esquecer que as desigualdades aumentaram, que não existe justiça fiscal, que muita gente fica desprotegida em situações de desemprego e velhice, e que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.


Discutir o assunto é urgente porque daqui a 15 ou 20 anos a Segurança Social que conhecemos hoje não passará de uma esmola que não dará sequer para a subsistência dos beneficiários.


terça-feira, novembro 07, 2017

A CAMPANHA MAIS LIMPINHA

O Turismo de Portugal aproveitou esta ocasião para lançar uma campanha para dizer que "é impossível escapar a Portugal", e com a previsão de gastar 20 milhões em 2017 e 2018, nada melhor do que fazer uma campanha... limpinha!


quinta-feira, novembro 02, 2017

REGRESSO AO PASSADO - PAÇO DE SINTRA

3ª Parte

… , e depois pela Sala dos Particulares, ornada , de dois ricos panos de Arrás, e a seguir pela Sala de Jantar, sem nada de notável, a não ser o ornato das janelas; entra-se então na Sala das Sereias ou da Galé, tão rica de decoração cerâmica (azulejos e mosaicos de grande beleza) e com uma curiosa porta de mármore, a um canto; à qual se segue a famosa Sala das Pegas, cujo motivo decorativo, se filia numa tradição galante que vamos resumir.

Um dia D. João I, galanteando uma dama da corte, deu-lhe uma rosa e um beijo; D. Filipa de Lencastre surpreendeu então o marido, que, ao dar por ela, respondeu: «Senhora, foi por bem». O caso fez escândalo no paço, e o rei, para confirmar dum modo público a frase, mandou adornar o tecto do salão com pegas (aves que simbolizam a parolice), tendo cada uma pendente do bico a legenda por bem. Há aí um rico lustre de Veneza e o célebre fogão monumental, de mármore de Carrara, transferido do Paço de Almeirim. Não tem qualquer consistência a afirmação de que foi oferta de Leão X a D. Manuel I. Parece que o trabalho de escultura é flamengo. Haupt atribuiu-o a Franz Florio. Na frente dele dois cofres, sendo o da direita de verdadeiro guada mecim hispano-árabe e o da esquerda imitação.

Atravessando o lindo Pátio Central, entra-se na grande Sala dos Cisnes (antiga de recepção), assim chamada por ter pintadas no tecto 27 destas aves, decoração primorosa e policromada a branco, vermelho, azul e ouro, decerto do tempo de D. Manuel I mas com restauros posteriores. As janelas e portas, talhadas em fino mármore, são muito lindas.
 Ao lado um terraço com alpendre, bancos corridos e um assento de braços, forrados de azulejos sevilhanos, onde (diz-se) D. Sebastião convocou os conselheiros de Estado para os ouvir sobre o infausto projecto da expedição a Alcácer-Quibir.

Voltando ao vestíbulo visitam-se os quartos que, no derradeiro período da monarquia, eram habitados pelos soberanos. É o 1º o antigo quarto de D. Luís, donde este monarca saiu doente para Cascais, onde faleceu. Na parede do fundo há uma rica tapeçaria Gobelin, com Luís XIV vestido à romana e visitando um atelier de pintura. Na sala seguinte notam-se alguns retratos, um deles de D. Catarina de Bragança, mulher de Carlos II de Inglaterra. Seguem-se o quarto de dormir da rainha D. Maria Pia, que tem paredes pintadas a cal, destoando de todo o edifício; o de vestir com armários vindos da Ajuda e vários castiçais Império; a sala de música, com numerosas peças de faiança de Sèvres, Saxe, Limoges, etc., vindas do Castelo da Pena, havendo entre elas um prato com os retratos de Luís XIV, de sua mulher, Teresa de Áustria, e de 7 amantes daquele rei; o antigo escritório com faianças hispano-árabes e, ao centro, uma bela taça da fábrica do Rato.

Por fim vai-se à original Sala de banho árabe, ou Casa da água, no pátio, de cujas paredes saem jorros de água.


FIM 


A imagem é do roteiro de onde este texto foi retirado e cujo autor está bem identificado. Algumas informações são erradas, mas esta (re)publicação teve como objectivo chamar a atenção para o tipo de visita existente nos anos 20 e 30 do séc. XX, e para o que se dizia então, bem como o que se oferecia ao público.

Talvez de pois disto haja quem queira revisitar o Palácio da Vila para tirar a limpo as diferenças.