domingo, abril 22, 2012

POESIA

Dois Rumos

Mentir, eis o problema: 
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema? 

Se mentir todo dia, 
erguerei um castelo 
em alta serrania

contra toda escalada, 
e mais ninguém no mundo 
me atira seta ervada? 

Livre estarei, e dentro 
de mim outra verdade 
rebrilhará no centro? 

Ou mentirei apenas 
no varejo da vida, 
sem alívio de penas, 

sem suporte e armadura 
ante o império dos grandes, 
 frágil, frágil criatura? 

Pensarei ainda nisto. 
Por enquanto não sei 
se me exponho ou resisto, 

se componho um casulo 
e nele me agasalho, 
tornando o resto nulo, 

ou adiro à suposta 
verdade contingente 
que, de verdade, mente. 

Carlos Drummond de Andrade
 
Lábia by Goran Divac

9 comentários:

C Valente disse...

Bom domingo com saudações amigas

Anónimo disse...

Uma voltinha pela poesia que refresca o cinzento da realidade nacional.
Bjos da Sílvia

elvira carvalho disse...

É um dos meus poetas preferidos.
Um abraço e bom Domingo

São disse...

Boa escolha, meu caro!

Abraço-o

Mar Arável disse...

Na verdade tudo é relativo

excepto a minha
que é tão só uma convicção

e já é tanto

Metalurgia das letras disse...

"São de facto dois rumos opostos uma verdade e uma mentira" Prefiro as verdades mas tenho me contentado com as mentiras... Nosso Carlos foi um grande poeta...

Metalurgia das letras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maceta disse...

a verdade da mentira... um filme que se vê com frequência...

abraço

maceta disse...

a verdade da mentira... um filme que se vê com frequência...

abraço