sexta-feira, abril 29, 2011

O CERCO DOS ABUTRES

Em situações difíceis aparecem sempre as aves de rapina para reclamar o seu quinhão de carniça. Podem pensar que isto apenas se aplica aos desertos, mas olhem que mesmo sem querer recordar um antigo ministro, Portugal também está ameaçado por predadores do mesmo tipo, ainda que dissimulados de fato e gravata.

Há pouco tempo ouvimos as palavras de Poul Rasmussen, o tal que se diz criador da flexisegurança, em que ele denunciava que a troika ia tentar destruir os mecanismos sociais de protecção dos trabalhadores, com as mexidas profundas nas leis do trabalho e nos mecanismos de contratação e de despedimento.

Pouco tempo passou e eis que surge um grupo de economistas e de patrões, do Fórum para a Competitividade, a propor a liberalização dos despedimentos e a redução das indemnizações por despedimento sem justa causa, para além de cortes para quem trabalha e redução dos descontos para as empresas.

O futuro das relações laborais em Portugal apresenta-se negro, e estes senhores que vivem com salários e rendimentos muito altos, nem sequer são capazes de prever que há limites para tudo, e que uma revolta generalizada não está assim tão longe como possa parecer, e que estão a ir muito além do aceitável no ataque a quem já deu tudo o que podia dar.

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quarta-feira, abril 27, 2011

CONTENÇÃO VERBAL DE POLÍTICOS

O episódio do tal adjectivo “foleiro” que fez correr bastante “tinta”por aí, logo secundado pelo termo “ciber-nabo”, que envolveram José Lelo e Nogueira Leite, foi uma versão soft da linguagem praticada por políticos.

Na política usa-se em geral o politiquês, onde abundam os adjectivos mais ou menos “doces” e o sorriso cínico que caracteriza gente capaz de enfiar uma faca nas costas do adversário, tão depressa este esteja distraído. Esta será a regra em público, pois como se sabe, logo que as comadres se zangam, lá surge o vernáculo ou o neologismo como “o abifar uns tachos” que lá vamos entendendo com alguma dificuldade.

Da Bielorrússia chega-nos outro exemplo da diplomacia verbal de políticos, em que Lukachenko nos brinda com umas frases de gritos:

- “Ele (Durão Barroso) é simplesmente um canalha! Por isso não quero falar de diferentes Barrosos, de outros cabrões (козлы), touros, etc. No que respeita aos cabrões (козлы), tais como Barroso e outros, quem é ele, esse Barroso? Conheço um tal Barroso em Portugal, foi corrido e arranjou emprego na Comissão Europeia”.

Qualquer piropo deste género, proferido por um qualquer cidadão, seria considerado uma ofensa e daria origem a um processo judicial, mas entre políticos, são meros piropos que fazem parte do “combate político”.




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terça-feira, abril 26, 2011

RAPIDINHAS

Maiorias – Sempre que ouço alguém dizer que é necessário existirem governos maioritários, arrepia-se-me a pele. Em Democracia os eleitores é que têm que decidir quais serão os seus representantes, e consequentemente os governantes, e não é curial que alguém queira condicionar de qualquer modo a votação, quase que exigindo uma maioria.

Instabilidade social – Têm sido diversas as pessoas que têm deixado alertas para a possibilidade de haver um aumento da contestação e até alguma instabilidade social, em consequência das dificuldades económicas e da descredibilização do governo e da classe política. A contestação pacífica tem estado patente nas ruas, nas greves e até no ciberespaço, mas sempre vão surgindo outros sinais mais preocupantes, como a violência clubista e agora a ligada à contestação das portagens.



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segunda-feira, abril 25, 2011

25 DE ABRIL

Só é digno da liberdade, como da vida, aquele que se empenha em conquistá-la.



sábado, abril 23, 2011

BOA PÁSCOA

O Zé deseja a todos os visitantes deste pedaço uma Boa Páscoa, com tudo a que tenham direito.
Não se lambuzem nem se estiquem muito.


sexta-feira, abril 22, 2011

A TERRA

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!


Miguel Torga

FOTOGRAFIA DA TERRA



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quarta-feira, abril 20, 2011

MUSEUS GRATUITOS - PARTE II

Quando escrevi o post anterior pensei nos meus visitantes habituais, não entrando em detalhes muito específicos que só são conhecidos por pessoal ligado aos museus e ao turismo. Pelos vistos fiz mal pois existem leitores mais conhecedores que também o leram e levantaram questões interessantes.

Quero deixar bem claro que o autor deste blogue está rodeado de amigos que trabalham nesses sectores (museus e turismo), sendo que sou também um amante de arquitectura e de História, factores que me levam a conhecer profundamente o nosso Património. Nem o autor do blogue nem os seus colaboradores são membros da APOM, que sabemos ser elitista por ser composta apenas por técnicos superiores e não ser aberta aos restantes profissionais ligados aos museus e à museologia.

Ao abordar a questão da gratuitidade aos domingos e feriados para os estrangeiros, numa altura de grandes apertos orçamentais, faço-o por julgar que é incompreensível, e não vejo que o enquadramento legal vigente seja um impedimento para a “discriminação positiva” que defendo neste momento.

Abordei o caso do Palácio Nacional da Pena, neste momento gerido pelos Montes da Lua, mas continuando a ser da responsabilidade do Estado, por ser um exemplo de como o enquadramento legal não impediu que toda a gente (nacionais e estrangeiros) pague sempre as entradas, à excepção dos residentes do Concelho de Sintra, um pouco à semelhança do que também acontece com o Castelo de S. Jorge em Lisboa.

Para enquadrar mais rigorosamente a minha discordância com a gratuitidade para os estrangeiros em todos os domingos e feriados, devo acrescentar que em diversos serviços dependentes do Ministério da Cultura, e falo de museus, palácios e monumentos, não há dinheiro para pagamento de trabalho extraordinário, e está a ser pedido “um esforço patriótico” da parte dos que asseguram a abertura destes serviços, no sentido de trocarem o trabalho aos feriados por igual tempo de folga, para além de serem forçados ao trabalho por turnos, para assegurarem maior tempo de abertura sem encargos para os serviços.

É óbvio que não estou a falar de membros da APOM, mas sim de outros profissionais a quem o ministério não respeita o direito a horários, nem compensa pela discriminação que pratica, atendendo à categoria que detêm e ao esforço que lhes exige.

É evidente que não espero que o diligente anónimo responda a este novo post, mas talvez possa levar o seu conteúdo ao conhecimento da senhora ministra, ou de alguém próximo dela, porque estou certo que ela não terá conhecimento desta realidade.



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Imagem já aqui publicada em 28 de Março de 2007

terça-feira, abril 19, 2011

MUSEUS GRATUITOS?

Ao ler a opinião da ministra da Cultura, publicada no DN da passada segunda-feira, sobre o tema em questão, fiquei com a impressão de que a senhora ministra só tem este tipo de discurso porque está de saída, ou porque está muito equivocada.

Tudo roda em torno das gratuitidades aos domingos e feriados até às 14 horas, que em muitos casos são contestadas, especialmente em museus e monumentos que fazem parte de roteiros turísticos consolidados.

Podemos discutir se gostávamos de ter entradas grátis em todos os museus, como acontece com o Museu Berardo, mas seria curial colocar em local bem visível o custo dessa atitude, para não distorcer uma discussão que se quer séria.

Gabriela Canavilhas fala dos museus ingleses para exemplificar as virtualidades das gratuitidades, mas pode-se contrapor a realidade francesa, onde se paga, e onde temos uma melhor gestão museológica e onde o público é muito mais abundante, mas não vale a pena.

Alguém deveria recordar à senhora ministra que o Palácio Nacional da Pena, que é um monumento nacional e está sob a tutela do seu ministério, ainda que seja gerido por uma aberrante sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos, não dá gratuitidades aos domingos e feriados a ninguém, excepto aos residentes no concelho de Sintra, e sobre isso a senhora ministra não se pronuncia.



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domingo, abril 17, 2011

O TOQUE DE MIDAS

Era uma vez um rei muito rico chamado Midas. Ele possuía mais ouro do que qualquer outro no mundo inteiro, mas ainda assim não estava satisfeito. Nada o deixava mais feliz do que conseguir acrescentar um pouco mais à sua riqueza. Mantinha-o todo guardado em enormes cofres nos subterrâneos do palácio, e passava muitas horas por dia contanto e recontando seu tesouro.

O Rei Midas tinha uma filhinha chamada Áurea. Amava-a com verdadeira devoção, e dizia: "Ela será a princesa mais rica do mundo!"

Mas a pequena Áurea nem se importava com isso. Adorava seu jardim, as flores e o sol, mais do que a riqueza do pai. Ficava sozinha a maior parte do tempo, pois o pai estava sempre ocupado, buscando novas formas de conseguir mais ouro, e contando o que já possuía, de tal sorte que quase nunca tinha tempo para contar-lhe histórias ou passear, conforme deveriam fazer todos os pais.

Um dia, o Rei Midas estava na sala do tesouro nos subterrâneos do castelo. Havia trancado as pesadas portas do aposento e aberto os enormes baús. Despejou todo o conteúdo sobre a mesa e pôs-se a brincar com o ouro como se o simples toque o deixasse satisfeito. Fazia-o escorrer entre os dedos e sorria ao ouvir o tilintar das peças, qual doce melodia. De repente, uma sombra se projectou sobre a pilha de objectos. Ao levantar os olhos, deu com um estranho trajando roupas brancas brilhantes e sorrindo para ele. Soergueu-se, surpreso. Não se esquecera de trancar as portas! O tesouro, então, não estava seguro! Entretanto, o estranho continuou sorrindo.

- Vossa Excelência tem muito ouro - disse ele.

- Tenho, sim - disse o rei -, mas é pouco comparado a todo o ouro que existe no mundo!

- Ora! Esse ouro todo não satisfaz a Vossa Excelência? - Perguntou o estranho.

- Ora, essa! - Respondeu o rei - Mas é claro que não estou satisfeito. Passo longas noites acordado planejando novas formas de conseguir mais. Gostaria de poder transformar em ouro tudo que toco.

- É isso que Vossa Excelência realmente deseja?

- Claro que sim! Nada haveria de deixar-me mais satisfeito.

- Pois o desejo de Vossa Excelência será atendido. Amanhã de manhã, quando os primeiros raios de sol entrarem nos aposentos, Vossa Excelência terá o toque de ouro.

Ao terminar de falar, o estranho desapareceu. O Rei Midas esfregou os olhos.

- Devo ter sonhado - disse ele -, mas como eu ficaria feliz se isso fosse verdade!

No dia seguinte, o Rei Midas acordou quando a primeira luz do dia se fez presente em seus aposentos. Esticou a mão e tocou as cobertas da cama. Nada aconteceu. - Eu sabia que não poderia ser verdade - exclamou, desapontado. Naquele exacto momento, entraram pelas janelas os primeiros raios de sol. As cobertas onde estava encostada a mão do rei transformaram-se em ouro puro. - É verdade! É verdade! - gritou ele, muito contente.

Saltou da cama e correu pelo aposento tocando em tudo que havia. O manto real, os chinelos, os móveis, tudo virou ouro. Foi até a janela e olhou para o jardim de Áurea. - Vou fazer-lhe uma boa surpresa - disse ele. Desceu ao jardim e tocou todas as flores da filha, transformando-as em ouro. - Ela ficará muito satisfeita - pensou.

Voltou aos seus aposentos para aguardar a chegada do café da manhã; e dispôs-se a retomar a leitura da noite anterior, mas assim que suas mãos tocaram o livro, o objecto se transformou em ouro maciço. - Não posso ler, assim - disse o rei -, mas, ora, é bem melhor ter um livro de ouro.

Naquele exato momento, um criado entrou nos aposentos, trazendo-lhe o café da manhã. - Que beleza! Vou começar pelo pêssego, que está vermelhinho de tão maduro.

Pegou-o então, mas, antes de conseguir comê-lo, já se havia transformado num pedaço de ouro. O Rei Midas o colocou de volta no prato. - É muito bonito, mas não posso comê-lo! - Disse ele. Pegou uma broa de pão, mas também ela se transformou em ouro. Colocou a mão no copo de água, mas tudo virava ouro. - O que vou fazer? Tenho fome e sede. Não posso comer nem beber ouro!

E logo a pequena Áurea entrou em seus aposentos. Ela estava chorando, muito sentida, e trazia nas mãos uma das rosas.

- O que houve, filhinha?

- Ah, papai! Veja o que aconteceu com minhas rosas! Estão todas duras e feias!

- Ora, são rosas de ouro, filha. Você não acha que estão mais bonitas agora?

- Não - disse ela, soluçando. - Não têm mais o agradável perfume que tinham. Não crescerão mais. Gosto de rosas vivas.

- Não se preocupe - disse o rei -, venha tomar seu café.

Entretanto, Áurea percebeu que o pai não comia, e que estava triste. - O que houve, meu querido pai? - Perguntou ela, aproximando-se. Deu-lhe um abraço, e ele a beijou. Mas, de repente, o rei soltou um grito de pavor. Ao tocá-la, o lindo rostinho transformou-se em ouro brilhante, os olhos não viam mais, os lábios não conseguiram beijá-lo também, os bracinhos não o estreitaram. Deixou de ser uma adorável e carinhosa menina; transformara-se numa estatueta de ouro.

O Rei Midas baixou a cabeça e os soluços o sobrepujaram.

- Vossa Excelência está feliz? - Alguém perguntou. O rei levantou a cabeça e viu o estranho de pé a seu lado.

- Feliz! Como te atreves a perguntar uma coisa dessas? Sou o homem mais triste na face da terra! - Disse o rei.

- Vossa Excelência tem o toque de ouro. E isso não basta?

O Rei Midas não tornou a olhar para o estranho, nem respondeu.

- O que Vossa Excelência prefere: comida e um copo de água fresca ou essas pedras de ouro? - Disse o estranho.

O Rei Midas não conseguiu responder.

- O que prefere ter, ó Majestade? Aquela estatueta de ouro ou uma menina que pode correr, rir e amá-lo?

- Ah, devolva-me minha filhinha Áurea e eu abdicarei de todo o ouro que tenho! - Disse o rei. - Perdi a única coisa que realmente me valia ter.

- Vossa Excelência demonstra agora mais sabedoria do que antes - disse o estranho. - Vá mergulhar no rio que passa nos fundos do jardim, e depois leve um pouco da água para jogar sobre tudo aquilo que deseja ter de volta ao normal.

O estranho, então, desapareceu.

O Rei Midas levantou-se rapidamente e foi correndo até o rio. Mergulhou, pegou um bocado de água e retornou ao palácio. Jogou-a sobre Áurea e as cores voltaram a iluminar seu rosto. Ela tornou a abrir os olhinhos azuis. - Ora, papai! - Disse ela - O que aconteceu?

Chorando de alegria, ela a pegou no colo.

Depois disso, o Rei Midas nunca mais se preocupou com ouro algum, a não ser o ouro que existe no brilho do sol e nos cabelos da pequena Áurea.

Adaptação de O livro das maravilhas, de Nathaniel Hawthorne (DAQUI)

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quarta-feira, abril 13, 2011

LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"



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terça-feira, abril 12, 2011

AJUDAS LUCRATIVAS

O FMI vai aterrar em Portugal para analisar as nossas contas e para passar a receita que acompanhará a operação de resgate financeiro a Portugal.

O pacote de ajudas, que o FMI e a União Europeia, estimam que ronde os 80 mil milhões de euros, e que se estenderá até 2013, não devia ser assim chamado já que é uma “ajuda com interesses”.

Os “desinteressados” FMI e UE não são propriamente instituições de caridade, nem mecenas, e vão lucrar com esta “ajuda”. Segundo veio a público os lucros desta “ajuda” atingirão um mínimo de 1.580 milhões (cálculo por baixo), sendo que 2/3 serão para os países europeus e 1/3 será para o FMI.

Apetece citar outrem e dizer “é a economia, estúpidos”.



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sábado, abril 09, 2011

O EXEMPLO QUE VEM DE CIMA

Lia eu os jornais e lá fui reparando que a princesa Letizia da Espanha usava vestidos que custavam menos de 70 euros, e que, pasme-se, repetia o seu guarda-roupa. Outra notícia que também me saltou à vista dizia que David Cameron, primeiro-ministro britânico, assinalou o 40º aniversário da esposa com uma viagem numa companhia aérea “low cost”, e ficou hospedado num hotel 3 estrelas em Espanha.

Não! O Reino Unido não pediu ajuda internacional, nem consta que as agências de rating tenham a mais leve intenção de baixar a nota da sua dívida. Deve ser confusão, porque acho que foi Portugal que estendeu a mão à ajuda europeia, ainda que isto seja confuso.

Ao mesmo tempo que li estas notícias recentes, procurei imediatamente encontrar sinais idênticos dados pelos nossos políticos, e apesar de ter encontrado notícias de idas ao estrangeiro de ministros e até do presidente da República, não encontrei nem sequer uma nota de rodapé, sobre algo de que tenham renunciado para darem o exemplo aos cidadãos que vão pagar muito cara a sua incompetência e os seus muitos erros.



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quinta-feira, abril 07, 2011

PORTUGAL JÁ PEDIU AJUDA

Eu já tinha dito por aqui que Portugal iria pedir ajuda externa até ao mês de Maio, quando ainda pouco se falava nessa ajuda e quando José Sócrates e Teixeira dos Santos juravam a pés juntos que não era necessário.

A necessidade do recurso à ajuda externa é sempre discutível, mas há condições externas que podem ter grande influência nestas decisões, e elas já se desenhavam há muito com o jogo das agências de rating.

O problema da dívida externa foi sendo abordado de modo errado, sendo que se dizia que era a dívida soberana do Estado que nos estava a empurrar para o fundo, quando na realidade o problema maior era o da dívida dos bancos e das empresas, que era naturalmente mais preocupante para os mercados, como acabou por ser reconhecido por Strauss-Kahn, director do FMI.

Em Portugal e na Irlanda o povo está a ser chamado para resolver não só erros dos políticos que nunca conseguiram prever e evitar a situação que a banca criou e a política acabou por potenciar. As medidas restritivas vão incidir sobre os rendimentos do trabalho, e sobre a segurança social, para que aconteça o resgate da banca e dos grandes devedores, que são precisamente as grandes empresas.

Os irlandeses bem nos avisaram de que o FMI não era a solução para os nossos problemas. Agora a Europa caminha a passos largos para enfrentar maiores tempestades, porque os próximos alvos dos abutres da especulação, são países com maior dimensão e que vão causar maior mossa caso as respostas da União Europeia continuem a ser da natureza das que nos vão ser impostas.


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quarta-feira, abril 06, 2011

APRENDIZES DE MAQUIAVEL

Cada vez mais tenho para mim, que os políticos deste país andaram a ler Maquiavel, e tentam replicar o seu pensamento de um modo ainda mais retorcido do que o próprio seria capaz.

Em abono da verdade podemos dizer que a política atinge a maioridade com Maquiavel, que passou a conceber a política numa esfera completamente autónoma da vida social. Com ele a política deixa de ser pensada a partir da ética e da religião, iniciando-se uma ruptura completa com os clássicos da antiguidade e com os valores cristãos medievais.

Com Maquiavel deixa de ser pensada apenas no contexto filosofia, passando a constituir-se num espaço independente, com regras e dinâmicas livres de considerações privadas, morais filosóficas ou religiosas.

Para Maquiavel a política devia preocupar-se com as coisas como são, com toda a crueza, e não com as coisas como deviam ser, com todo o moralismo que lhes é subjacente. Ao libertar a política da moral, Maquiavel explicitou o seu carácter terreno e transformou-a em algo passível de poder ser assimilada pelo comum dos mortais.

Esta teoria teve um preço. Não foi por acaso que Maquiavelismo passou a ser sinónimo de política desprovida de moral e de boa fé, ou procedimento astucioso e velhaco.

Este florentino ao pretender demonstrar a hipocrisia moral da sua época, acabou por inspirar uma legião de seguidores, para os quais só importa uma simples e famosa frase dele: “Os fins justificam os meios”.

Sugestão de leitura - O Príncipe de Nicolau Maquiavel (Ebook download grátis)



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segunda-feira, abril 04, 2011

A SAÚDE NUNCA FOI GRATUITA

A cartilha liberal é bem conhecida por todos quantos se debruçam sobre assuntos relacionados com a política e a sociedade em geral, mas há sempre quem queira acrescentar mais alguma coisa ao que vem nos livros, e entre por questões de semântica.

Campos e Cunha, ex-ministro de Sócrates e mandatário da última candidatura de Cavaco, veio agora defender que a Constituição precisa de ser revista e que certas referências como “o pleno emprego” e a saúde “tendencialmente gratuita”, deveriam sair do texto fundamental.

Um economista não é um especialista em Direito Constitucional, e parece que também não conseguiu compreender muito bem a razão da inclusão destas expressões no texto constitucional.

Campos e Cunha não tem razão quanto à necessidade de ser retirada a expressão “tendencialmente gratuita”, quando aplicada à saúde, porque todos sabemos que os cuidados de saúde nunca foram gratuitos e que para eles contribuímos com os nossos descontos para a segurança social, desde há muito, e isso não foi nunca posto em causa. Serão discutíveis outros pagamentos extras, isso sim, e daí a utilidade da expressão.

Do mesmo modo não lhe assiste razão, quando põe em causa a expressão constitucional ”pleno emprego”, que serão políticas que o Estado deve promover. Porque essa deve ser uma preocupação de qualquer governo eleito, por evidentes preocupações sociais, e também por necessidade de arrecadar impostos e diminuir encargos sociais que derivam sempre de situações de altas taxas de desemprego.

Esta corrida insana em tentar demonstrar quem mais o mais liberal e o mais reformador, tem conduzido a alguns perfeitos disparates, que eram dispensáveis agora que temos problemas de maior gravidade para resolver.



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domingo, abril 03, 2011

ESTE DOMINGO É DE VALSA

Porque a música é um bálsamo que nos leva esquecer muitas das agruras da vida, e como é a linguagem mais universal, aqui vos deixo uma das músicas que preencheram uma parte da minha tarde, esperando que gostem.

Pode colocar os phones no lugar e começar a ouvir o que está lá mais abaixo.



STRAUSS I I
(1825-1899)

Johann Strauss II é considerado o músico mais famoso de toda a família Strauss. Ele nasceu em Viena, em 25 de Outubro de 1825. Empregou-se como bancário para satisfazer o pai, embora estudasse violino sem seu conhecimento. Desde os dezasseis anos, Schiani (o apelido familiar do compositor) compôs música dançável e cada vez mais popular. Sua produção chegava a uma média de duas valsas por mês. Na forma, elas tinham certa semelhança com as criadas por seu pai, com uma introdução lenta e as melodias de grande inspiração, mas com os detalhes harmónicos e orquestrais mais ricos e subtis.

Aos dezanove anos aprontou uma surpresa para o pai: ao regressar de uma tournée, Johann Strauss I encontrou as ruas de Viena repleta de cartazes: ‘Johann Strauss II apresenta sua orquestra e suas valsas’. Ficou mais estarrecido ainda quando, ao mandar emissários para o concerto, recebeu notícias avassaladoras. Em 15 de Outubro de 1844, a orquestra de seu filho foi obrigada a voltar ao palco dezanove vezes para repetir a sua valsa Epigrama. Durante algum tempo, as orquestras de pai e filho foram concorrentes, mas com a morte do patriarca dos Strauss, em 1849, elas se juntaram. Quando chegou ao principal salão de Viena, Johann II recebeu de um dos músicos o violino que pertencera a seu pai e, com ele, conduziu as orquestras finalmente unidas. Na plateia, um cartaz previa o futuro do jovem: ‘Viva o rei da valsa’.

O novo regente dividiu a orquestra em quatro grupos e, a cada noite, regia um após o outro. Aos vinte e nove anos, a fadiga o levou a delegar a seu irmão Josef parte dessa tarefa. Com isso, o jovem e próspero músico pôde dedicar-se à composição, além de viajar pela Europa e Estados Unidos, onde realizou uma apresentação histórica, ao reger uma orquestra de quase 1.000 músicos na comemoração dos 100 anos da independência americana, em 1876, na cidade de Boston.

Elegante, esguio, com brilhantes olhos negros e escura cabeleira ondulada, Johann II compôs sua obra mais popular, O Danúbio azul, depois de se casar com Jetty Treffz, seis anos mais velha do que ele. O Danúbio azul se transformaria, praticamente, no hino de Viena e serviu como tema musical do filme de Stanley Kubrick ‘Uma odisséia no espaço’ (1968). Seguiram-se composições também antológicas, como Vozes da Primavera, Sangue vienense, Vida de artista, Contos dos bosques de Viena, Vinho, mulheres e música, Valsa do imperador, Rosas do sul. O compositor foi casado, ainda, com Lily Dittrich e Adela Deutsch.

A criação da opereta O morcego (1874), considerada a sua obra-prima, teve uma influência decisiva de seu amigo Offenbach, o mais importante compositor de óperas cómicas da Europa na época e que esteve em Viena por volta de 1870. Depois de O morcego, em que exaltava a alegria de viver em Viena, Johann II compôs mais 13 operetas, deliciosas crónica de costume. Entre seus amigos famosos estava também o compositor Brahms. Consagrado em vida, ele recebeu do imperador Francisco José o maior de todos os elogios para quem, na juventude, teve ideias republicanas: ‘Tu também és imperador’.

Ao morrer, aos setenta e três anos em 3 de Junho de 1899, Johann Strauss II, deixou um património musical de 479 obras, entre valsas, polcas, operetas e, para sempre, nos corações apaixonados, o sublime encanto que uma valsa de Strauss provoca quando se entrega ao prazer absoluto de sua música divina. Pode-se dizer que Johann Strauss II, além de seus dotes extraordinários de músico, foi símbolo de uma época que glorificava, com suas músicas, uma alegria de viver jamais superada.

Strauss II é considerado o rei da valsa. Suas mais conhecidas obras neste género são: Contos dos bosques de Viena (1868), O Danúbio azul (1867), Rosas do sul (1880), Sangue vienense (1871), Valsa do imperador, Vida de artista (1867), Vinho, mulheres e música, Vozes da primavera. O morcego (1874) é a sua principal opereta, seguido de O barão cigano (1885).

Texto original

CONTOS DOS BOSQUES DE VIENA