domingo, abril 27, 2008

O MERECIDO DESCANSO

Como devem ter notado, o Zé aproveitou a preceito o feriado e o fim-de-semana alargado para descansar o corpinho. Como é aconselhável, o descanso deve ser respeitado a bem do equilíbrio familiar e mental.

Houve quem tivesse questionado o facto de eu festejar o 25 de Abril, o que parecia incompatível com o facto de ter sido um dos milhares de portugueses que foi apelidado de retornado. Lamento que existam dúvidas sobre o que escrevo, mas sempre separei os ideais dos que acabam por ser protagonistas da História, por oportunismo ou por intromissão abusiva em momentos para os quais nada contribuíram.

Fui um dos muitos que teve de refazer a sua vida depois do 25 de Abril, onde perdi não só tudo o que tinha, trabalho, casa e até estabilidade familiar, mas também a terra em que nasci, onde passei a ser considerado indesejável por causa da cor da minha pele. Se tenho que culpar alguém, esses são precisamente os protagonistas da política anterior ao 25 de Abril, e os oportunistas ou incapazes que os sucederam no poder.

A Liberdade foi por mim muito bem recebida, e os inconvenientes e excessos do período revolucionário, uma consequência de erros do passado e incapacidade aliada à ignorância de quem tomou as rédeas do poder. Nunca exigi compensações do Estado mesmo sabendo que a elas tinha direito, ao contrário de outros que nunca viram a sua subsistência ser ameaçada mas apenas o seu património. Pode parecer pouco, mas só eu sei o que é sentir o desespero de não ter dinheiro para sustentar uma família, ou vê-la ameaçada e até destruída por ter que lutar por alguma estabilidade económica, descurando a presença e o acompanhamento familiar.

Não lamento as minhas opções, apesar dos inconvenientes familiares, o divórcio, a disputa do poder paternal e o constante refazer de vida. Paguei um preço elevado pela Liberdade que prezo, mas nunca coloquei em causa os ideais de Abril. A Liberdade de que os meus filhos desfrutam e que espero deixar como herança para os meus netos, valeram todos os meus sacrifícios. Assim saibam eles que a Liberdade é um património que importa preservar.

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FOTOGRAFIA
Артём Сабиров
Золот-Ник

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CARTOON DE AUTOR


Japão por Bruno Venâncio

Hugo Chávez por Bruno Venâncio

15 comentários:

Sophiamar disse...

Valeram todos os nossos sacrifícios. A Liberdade é um bem a preservar pelo que não podemos pensar que ela veio para ficar. Temos de estar alerta. Resultou de uma luta de muitos anos que custou a vida a muitos que por ela pugnaram.Li com interesse a tua história de vida e sei avaliar quanto terás passado. Tenho familiares que viveram uma experiência semelhante.

Beijos

aryanalee disse...

O descanso merecido de um corajoso guerreiro!
Uma óptima semana

anamarta disse...

Passei por aqui e li com atenção o seu texto que gostei, e quero dizer-lhe que valorizo e muito aquilo porque passou, também eu tenho amigos que vieram na mesma situação e para quem foi muito difícil! e tal como você também eles compreendem que quem criou essa situação não foi a revolução de Abril.
um abraço

São disse...

Se tinha boa impressão de ti, agora o meu respeito cresceu após ler esta tua lúcida entrada!
Espero que tenhas conseguido refazer a tua vida em todos os campos e que a Liberdade e Democracia não se enredem na corrupção e no afastamento das gerações mais novas.
Sê feliz.

C Valente disse...

Que tenha de facto sido bom descanso , e merecido,
Saudações amigas e boa semana de trabalho

SILÊNCIO CULPADO disse...

Zé Povinho
És um homem franco e determinado que aprendi a conviver e a respeitar. Admiro-te muito e percebo tudo aquilo que contas. Os percursos são diferentes mas, basicamente, até nem são diferentes.
Tudo na vida tem um preço mas o mais importante não é o preço mas a consciência que nos fica depois de o termos pago.
Um abraço bem apertado

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá meu querido Zé, depois de um descanso merecido, escreves aqui um texto... que infelzmente muita gente pode rever-se nele...Idêntico a ti, dois tios meus passaram pelos mesmos problemas... um foi para o Norte do País e outro para o Brasil... Mas foram anos muito difíceis para eles... Hoje tem as suas vidas normalizadas, mas ainda á muita gente que não tem...perderam tudo... E aí os nossos governos deviam ter em consideração aqueles que ainda sofrem com a descolonização...
Beijos de carinho,
Fernandinha

Anónimo disse...

Quem te conhece bem sabe que tu não és pessoa para calar as injustiças e estás na linha da frente quando é preciso defender os direitos. Foi esse o testemunho que soubeste passar a quem trabalhou sob as tuas ordens a quem defendeste sempre, mesmo quando isso te trouxe inconvenientes.
Mereces bem a a felicidade que voltaste a encontrar, e que eu testemunhei de perto.
Bjos da Sílvia

tibeu disse...

Adorei conhecer este blog. Deixo os meus parabens, se quizer passar pelo meu cantinho.... é www.tibeu.blogs.sapo.pt

confra-ria disse...

Quem fala assim merece toda a minha consideração,todo o meu respeito.O Zé é um ser Humano a valer!
Um abraço da Confra-ria.

Laurentina disse...

Zé meu querido amigo , a tua historia é a historia de milhares de nós que de lá viemos corridos sem culpa formada a não ser a culpa da cor da pele...no entanto eu como tu assino por baixo o que aqui disseste.
O Oportunismo do antes e do depois é que nos desgraçaram...aos de lá aos de cá e a todos em geral que são "POVO", mas deixa que a historia encarrega-se de os fazer pagar...

Boa semana
Beijão grande

Maria disse...

A Liberdade é a unica conquista que ficou para sempre com o 25Abril. E essa, não a podem nos tirar pq nesse dia haverá outra Revolução.

Dantes havia a pide, agora há os Bufos mas nunca
ninguêm nos vai calar!!!

Bjs de Abril :-)

Jorge P.G Sineiro disse...

Conjunto de imagens muito interessante, de que destaco as dos bichos.

Do texto, relato de episódios de vida, destaco a frase final.
É bem preciso que quem cá está e vai ficar ainda mais uns tempos largos, saiba o que é e o que custou a obter essa liberdade de que muitos falam sem saberem o que vale.
Uma boa herança a deixar, esse conhecimento !

Um abraço.

Jorge P.G.

Maria disse...

Olá Zé,
Gostei de ler a sua história em particular porque lhe reservou um final feliz tal como gosto de ver em todas as histórias.
Faz tanto tempo não via gafanhotos tão bonitos. Em miúda costumava brincar com eles.
Desejo-lhe uma boa semana .
Um beijinho amigo.
Maria ( uma delas :) )

Sérgio Costa disse...

E hoje? Somos livres?