quinta-feira, janeiro 31, 2008

MUDANÇAS, OU TALVEZ NÃO!

Na política por vezes diz-se que é preciso mudar, para que tudo fique na mesma. Não pretendo ser cínico nem precipitado, mas tão pouco estou distraído deixando passar algumas informações que são públicas.
Foi feita uma pequena remodelação, aliás ainda há mais uns ajustes a decorrer, mas logo surge a afirmação de que a política seguida até agora vai ser continuada pelos novos ministros. Depois surgem umas quantas palavras para desmobilizar os protestos, admitindo José Sócrates que não é insensível às pessoas nem às suas queixas, e admitir até que não haverá mais encerramentos de urgências sem alternativas.
Uns podem ficar confusos com estas contradições, mas é natural que haja um interregno, facilmente explicável pelo tempo necessário para os novos ministros conhecerem os cantos à casa (chamam-lhe dossiers), mas tudo voltará ao mesmo, pois o responsável dessas políticas continua a ser o mesmo, o 1º ministro.
José Sócrates revelou mais uma vez a sua arrogância e irritação, acusando o PSD de “aproveitar sentimentos primários das populações”. Ainda não entendeu o senhor 1º ministro que as populações não são assim tão manipuláveis, e que os apupos e as manifestações contra a política do governo são apenas manifestações de desagrado evidente com o rumo das coisas. Por favor não nos chame tolos!
A guardo com alguma expectativa, para ver como vai a nova ministra da Saúde compatibilizar as suas declarações proferidas antes de o ser, com a continuidade das políticas de Correia de Campos, e também quero ver como é que o novo titular da pasta da Cultura vai conseguir gastar menos e melhor, com a absoluta centralização dos meios existente, e sem alguma autonomia responsável, como foi o rumo traçado pela sua antecessora com o beneplácito de José Sócrates.
Estaremos cá para comentar as cenas dos próximos capítulos.


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PORTADORES DE HIV - DIFERENÇAS E OPORTUNIDADES


Todos nós podemos ser portadores de HIV ou termos, entre os mais próximos, alguém que o seja.
Quando tal acontece sabemos bem o valor da informação que nos permite lidar com esse problema de saúde e, também, com as representações sociais sobre a doença.
A entrevista que a seguir se publica é um testemunho vivo que toca e que dói.
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Lídia - As pessoas com sida estão em desigualdade de oportunidades em relação às outras pessoas?
Raul - Vamos considerar quando fala em pessoas com sida pessoas infectadas pelo HIV, pois Sida é o último estágio no avanço da doença e essas pessoas, estão muito debilitadas normalmente. Claro que estão em desvantagens em todos os aspectos quer a nível de trabalho, quer empréstimos quer seguros de vida. A máscara continua a ter que ser usada e o engenho de cada um tem de ser usado para contornar estes obstáculos.
Lídia - Há maiores dificuldades a nível de emprego, escola e participação em actividades de grupo?
Raul - Uma das maiores preocupações de qualquer infectado que tenha um emprego estável o qual lhe permite viver confortavelmente, é o medo de perder esse emprego devido à sua condição de infectado pelo HIV. Normalmente as grandes empresas pedem check-ups anuais ou de dois em dois anos, aos seus funcionários. Dos diversos testes que pedem um deles é ao HIV, o qual é aterrorizante para quem sabe que está infectado e sabe que tem de fazer o teste daí a uns tempos. Depois nas próprias instituições ouvem-se conversas sobre sida (as pessoas não sabem que o colega está infectado) que são autênticas aberrações e mostram o que realmente a sociedade pensa acerca da doença. O pobre desgraçado ouve aquilo como um escárnio sobre ele, só que não se revela porque não é louco, precisa de trabalhar e está amedrontado. O stress é grande acredite. Soube do caso do cozinheiro despedido pelo grupo Sana? A justiça ainda deu razão à entidade empregadora não obstante haver relatórios científicos que atestavam a infecção pelo HIV não ser perigosa no desempenho das suas funções e não haver risco para os clientes do hotel. Mas há mais …muitos mais casos. Nas escolas certamente tem lido e os leitores também, os problemas que os pais das outras crianças levantam quando sabem haver na escola uma criança seropositiva ao HIV. Nas actividades de grupo não vejo dificuldades. Ou estou em grupos dedicados à Sida e outras DSTs (Doenças sexualmente transmissíveis) e aí estou à vontade, ou então nos outros grupos não vejo necessidade de revelar a minha condição de infectado.
Lídia - Sente preconceitos da sociedade em relação a esse tipo de doença?
Raul - Directamente não, mas eu não revelo a minha condição de infectado excepto em casos em que isso é necessário. A minha família sabe, as pessoas envolvidas de qualquer maneira na problemática da Sida com as quais tenho contacto sabem, os meus amigos infectados e pouco mais. Não tenho que publicitar a minha doença, assim como não o tenho de fazer em relação à minha orientação politica, ao clube de que gosto ou mesmo preferências sexuais. Se o tiver que fazer faço-o com o mesmo à vontade. Para os contactos comuns o meu problema de saúde é uma insuficiência hepática e agora recentemente problemas cardíacos. Não estou mentindo sequer, só que não sou obrigado a dizer que a minha insuficiência hepática é devida á toxicidade de medicamentos que tomei para o tratamento da SIDA.. Estou ligado também a doenças comuns em infectados pelo HIV, como a hepatite C e as tuberculoses multi resistentes e isso não quer dizer que seja tuberculoso ou tenha a hepatite C ou outra qualquer doença. Agora em relação à SIDA e aos preconceitos da sociedade em relação à doença eles existem, e a prova disso são os casos que acontecem diariamente, alguns mesmo vindos de entidades governamentais responsáveis que vão alimentando a fogueira da discriminação, exclusão social e do estigma.
Lídia - O que acha que deve ser mudado a nível de mentes?
Raul - Disse-me que não entende muito de informática. Mas é necessário formatar o disco e colocar tudo de novo. Os erros do passado deixaram marcas profundas e é um trabalho gigantesco mudar as mentalidades. Se todos actuarmos e tivermos o apoio das entidades governamentais a pouco e pouco as coisas podem mudar. Um dos trabalhos era o governo apoiar palestras nas escolas com crianças mesmo antes de estas iniciarem a sua vida sexual activa. As crianças podem levar essas informações para os pais em casa. Era uma maneira de aproveitar o Know how da comunidade infectada e ao mesmo tempo dar-lhes a possibilidade (aos infectados) de com esse trabalho arranjarem um meio de subsistência. O saber e a experiência de muitos infectados torna-os em peritos altamente qualificados nessa matéria. Depois a frente de combate não pode ser só na desmistificação da doença. Temos de actuar cada vez mais na prevenção, para evitar novas infecções. Os comportamentos têm de mudar, e nunca é demais lembrar que a SIDA existe. A educação em relação á doença tem de passar pela informação e não pelo medo. A Sida não é o Papão com que se assustavam as criancinhas, aplicado a todo o povo menos informado.
Lídia - E de apoios estatais?
Raul - Apoio social a nível do infectado ou a nível de associações que trabalham nesta área? A nível de infectados há um apoio para ajudar na renda de casa, água e electricidade. Os assistentes sociais dizem desconhecer essa lei e que essa verba existe. É difícil de conseguir essa ajuda e podem-se contar pelos dedos da mão as pessoas que a nível nacional a recebem. Só com muitas cunhas dizia-me há tempos um feliz contemplado. A nível de associações o estado ajuda em alguns projectos. Mas as coisas estão difíceis e cada vez é mais complicado as associações receberem essas verbas. Quanto aos critérios para a atribuição dessas verbas e aos projectos aprovados e à sua utilidade na ajuda aos infectados, tenho uma opinião, mas não me vou pronunciar sobre ela nesta entrevista, desculpem-me.
Lídia- O que lhe falta?
Raul - Falta-me terminar o meu ciclo de vida e morrer. Até lá falta-me a segurança que me garanta a subsistência alimentar e de tecto que até hoje ainda não faltou. Note-se que nunca recebi qualquer subsidio ou apoio estatal, ou de qualquer outra instituição de apoio social. Também nunca o pedi até hoje.
Lídia - O que mudou na sua vida?
Raul - Morri e voltei a nascer, talvez seja a frase certa para ilustrar as mudanças. Na altura em que fui infectado sabia que a SIDA existia, e a minha noção acerca da doença era que matava rapidamente, e que bastava apanhar-se uma simples gripe que ela nunca mais curava e acabava por matar a pessoa infectada. Sabia que havia um medicamento chamado AZT, para a tratar mas via esse medicamento em botijas de alguns litros que era aplicado com internamento hospitalar tipo soro ou sangue nas veias. Via o tratamento da SIDA num cenário aterrador de dor e sofrimento. O meu retrato robot de uma pessoa com SIDA, era visualizado mentalmente como a figura de alguém andrajoso com feridas na cara e nos braços. Foram as imagens passadas ao mundo desde o inicio e que ficaram em memória. O quanto eu estava errado e essa minha ignorância no passado faz com que hoje compreenda o que muitas pessoas pensam acerca da SIDA. Ao saber que estava infectado, o impacto da doença mudou completamente a minha vida. É complicado aqui descrever tudo o que fiz. Sentia necessidade de ver outros infectados falar com eles, queria aprender …aprender…aprender… a como viver com a SIDA. Tinha um encontro obrigatório com a morte que ia adiando sucessivamente um mês, seis meses um ano. Ia estabelecendo metas antes de me entregar. Os meus filhos estavam no secundário ainda e não estavam preparados para a vida, essa era a minha maior preocupação. Fui negociando e adiando a minha partida. Os filhos acabaram o secundário depois acabaram a faculdade, a filha casou, já tenho um neto e a vida continua. Após 11 anos de infecção, não sei quantos anos irei viver mais, mas não estou preocupado com isso. Um dia hei-de morrer mas não tenho pressa. Se analisar a SIDA na minha vida até que nem foi tão má assim. Tive tempo para parar, pensar e saber o quanto gosto de viver. Passei a ter mais amor pelo meu próximo e a gostar mais de mim mesmo. Dediquei a minha vida à causa da SIDA e não quero parar de lutar. Sei o que sofri e sei o que cada um sofre quando sabe o resultado do teste. Não há necessidade para esse sofrimento e é por isso que estou aqui tentando dar uma ajuda a quem precisa dela. A minha vida só tem sentido enquanto houver pessoas que precisam de mim. Não tenho raiva da SIDA, ela ajudou-me a crescer como ser humano. Embora pareça um absurdo, acho que lhe estou agradecido por me ter feito acordar para a realidade da vida.

Para mais informações consulte:
SIDADANIA - http://sidadania.blogspot.com/
Retirado do blog MOENDO CAFÉ - http://moendocafe.blogspot.com/

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FOTOGRAFIA - A MOSCA

Smolkov

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CARTOON

25 comentários:

Kalinka disse...

Amigo Zé
eu diria mais ainda:
Mudanças, não, muito obrigado!!!
Afinal a quem é que eles pensam que mandam areia para os olhos. Que mania de acharem sempre que o povo é estúpido!!!

Já alguma vez abriste janelas, para ouvir estrelas? Vou começar a pensar nisso quando chegar a Primavera; gostaria de conversar com elas a noite toda!!!

Beijos cintilantes.

adrianeites disse...

n sei..
o mario lino, o manuel pinho, o severiano e os demissionarios (entre outros) não me inspiram confiança alguma..
ainda assim n sei se é das pessoas ou das politicas.. se calhar um pouco das duas coisas..

MARIA disse...

Olá Zé, antes de mais um grande Olé/á para a Elis Regina ! É lindo o tema. E a Elis uma maravilha.
Aplaudo a saída do Ministro da Saúde e da Ministra da Cultura.
A situação na saúde, particularmente, assumia foros de escândalo. A insatisfação e revolta do próprio pessoal do sector da saúde e o modo como se estava a tocar de tão perto o cidadão comum de escassos recursos e meios, obrigado a deslocar-se mal, durante horas, para aceder a um qualquer serviço de saúde, a continuar nos mesmos termos, não levaria este Governo a bom termo...
Sócrates reconheceu pelo menos isso. Revela alguma inteligência, parece-me.
O que é deplorável é ir buscar para Ministra uma senhora que diz que vai continuar exactamente as mesmas políticas que o anterior Ministro...
Nesse caso , resolvesse antes lá a sua questão de contas e justiça e depois viesse "dobrar" o colega ...

Para si
Um beijinho amigo
Maria

quintarantino disse...

Tomaso de Lampedusa?

No mais, aguardemos para ver mas penso que não será possível alterar grande coisa sem mexer no próprio programa do Governo. Pode haver uma ou outra maquilhagem, nada mais que isso. Mudar o programa, seria admitir a derrota e isso era um suicídio político.

E, dissipada a poeira, no caso de Correia de Campos iremos se calhar descobrir que mais que a a sua verborreia foi a sua pressa em implantar apenas uma parte de um programa que se exige que o matou.

Tiago R. Cardoso disse...

No fundo tudo ficará igual, vão se limitar a fazer o que o PM decidir, a politica para os dois sectores será a mesma...

C.Coelho disse...

Artigo sobre o HIV

Excelente, excelente, excelente! Frontalidade, perseverança, amor pelo próximo. Assim se constrói a cidadania.

ABEL MARQUES disse...

Sobre o texto portadores de HIV

A minha vida só tem sentido enquanto houver pessoas que precisam de mim.
Raul

São estas pessoas que fazem a diferença.

Sílvia disse...


Mais um post bastante lúcido sobre as mudanças que podem não o vir a ser. Gostei de ver aqui uma entrevista sobre o HIV, que muitos não se dipõem a colocar nas suas páginas.
Bjos

Spectrum disse...

Sabe o que me espanta mesmo meu amigo? A inclusão de alguém próximo de Manuel Alegre, a provar que nem ele, nem os apoiantes mais próximos souberam capitalizar os votos conseguidos nas presidenciais. De resto, é claro que a política de Sócrates não sofrerá mudança de rumo. Muda apenas as caras.
Abraço

Ludo Rex disse...

'Mais e melhor, com menos meios' O ministro começa mal...muito mal...
Pela Cultura!
Um Abraço

Mocho-Real disse...

Um tiro certeiro de Sócrates a desarmar manuel alegre que se mostrava disposto a avançar se tivesse bons apoios. Esta, Ana Jorge, já era...
Nada irá mudar na política de saúde. Obviamente, diria ainda!

Um abraço.

NINHO DE CUCO disse...

HIV
A vida vale sempre a pena mesmo quando insite em atraiçoar-nos. Ao aprendermos com a traição viveremos com mais sabedoria.
De enfatizar na esplêndida entrevista a força interior do Raul e a incertaza relativa aos apoios do Estado e ao acolhimento no seio da família humana uma vez descoberta a natureza duma doença que ainda arrasta consigo muitos tabus.

Pata Negra disse...

Com que então não há mais encerramentos sem alternativas? Mas eles por acaso encerraram algum serviço sem alternativas?! Olha! Não tínhamos dado por nada!
O cinismo político da escola PS chega ao ponto de seduzir uma apoiante do Alegre para acalmar as hostes!
Enquanto esta corja andar por aqui eu não terei saúde, eles poêm-me doente!
Um abraço a 80Km da urgência

Meg disse...

Amigo Zé,

Eu também estou convencida que este baralhar e voltar a dar não vai alterar a política que o ministro seguia. Já me parece que ele não cairá na asneira de fechar mais alguma coisa sem repôr e resolver os casos mais
"barulhentos".
Mas como entretanto ocorrerão mais alterações no Governo... o que já está anunciado, já nada me surpreenderá.
Olha, vamos esperar de "olho vivo".

Um abraço

Ru2x disse...

Obrigado por visitar o Sidadania e pelas suas palavras.Obrigado por aderir à causa da SIDA. De momento estou com problemas de saúde e não posso dar a todos a atenção que merecem.Voltarei em breve prometo.
Raul

Louise disse...

Sobre o HIV
Todas estas situações relacionadas com os portadores de HIV deviam ter outro enquadramento nas preocupações dum estado social mas que não têm.
Fiquei com um nó na garganta ao ler a entrevista, prova de coragem e de um espírito superior que o Raúl demonstra ter.
Que esta onda de solidariedade signifique um combate cerrado aos preconceitos fruto do obscurantismo que a nossa educação ainda não se mostrou à altura de resolver.

Joseph disse...

Sobre o HIV
Na verdade, os preconceitos e as faltas de apoio revelam quanto estamos atrasados e mal informados e como as pessoas lidam mal com o HIV por causa da sua ignorância.
Gastam-se verbas astronómicas a promover o governo e os partidos políticos e para informar sobre a saúde não há dinheiro.
Este tema também deveria ser abordado nas escolas em aulas de educação sexual.

Boris disse...

SOS HIV
A IGNORÂNCIA, sim a INGNORÂNCIA é o maior amigo do preconceito e o maior inimigo do calor humano.
Este testemunho vivo e o espaço SIDADANIA, que já visitei, são lições de vida extraordinárias. Assim os corações e as mentes estejam abertas para as receber.

M.M.MENDONÇA disse...

Onze anos de percurso com HIV é obra.
A forma como o amigo Raul amadureceu, moldou e tornou o seu carácter um exemplo de vida é algo de muito precioso e quase transcendental.
Apreciei a sua postura digna e senti-me revoltado com um país que não investe nos apoios fundamentais à vida e à educação dum povo.

ANTONIO DELGADO disse...

“aproveitar sentimentos primários das populações”...disse o PM? De facto a arrogância não tem limites.

um abraço
António

A. João Soares disse...

A falta de sinceridade é total. Então, se se pretendia manter a política do Governo, para que se mudaram as caras?
Porque se nomeou uma ministra que tem um processo judicial em tribunal? À mulher de César não basta ser séria!
Cada vez há mais nevoeiro que nos impede de ver claro!
Abraço

C Valente disse...

Bom fim de semana
com as saudações amigas

Anónimo disse...

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