terça-feira, julho 26, 2016

TURISMO E DINHEIRO

O dinheiro dos turistas é sempre muito bem-vindo, neste país com debilidades económicas evidentes, mas existem algumas dificuldades que passam despercebidas a muito boa gente.

Repare-se que o Banco de Portugal tem retirado mais notas de 50 euros de circulação do que as que emite, devido ao excesso de notas de grande valor.

Quem atende turistas estrangeiros, em lojas, bilheteiras, restaurantes, ou em outros tipos de serviços, sente muitas vezes dificuldades em fazer trocos devido ao elevado valor das notas apresentadas a pagamento.


Percebe-se a acção do Banco de Portugal ao recolher as notas de valor mais elevado, contudo nota-se que tal movimento não tem correspondência com o aumento de notas de 5 euros, que são muito escassas, complicando muito os trocos.


domingo, julho 24, 2016

O GUARDADOR DE REBANHOS

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem


E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz


E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.


Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..........................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade


Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.



Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Fernando Pessoa
(Alberto Caeiro)


08-03-1914

quinta-feira, julho 21, 2016

OS BRASÕES DOS JARDINS DE BELÉM

A edilidade de Lisboa decidiu-se pela não recuperação dos brasões do Jardim de Belém, e pela solução mais barata (?) de reduzir o espaço a um relvado. Nada como apreciar uma foto do que já foi esse jardim, com os brasões em bom estado de conservação.

O aspecto da Praça do Império, não sabemos se manterá o nome tendo em atenção o argumentário para esta decisão. era o que se pode ver abaixo, em 1940.

A fonte central funcionava durante todo o dia, e noite, ocasião em que era iluminada. Claro que os tempos eram outros e a ocasião era festiva. Nos nosso dias é raro ver a fonte a funcionar convenientemente e iluminada, como devia.

Não sei se o fundamentalismo do júri e dos convidados do concurso de ideias se ficará por aqui, ou se quererá reverter o aspecto do local ao tempo anterior às descobertas e ao início do império, e depois do colonialismo.

Voltar ao passado não é impossível, até porque existem imagens dos tempos em que a praia chegava às portas do Mosteiro dos Jerónimos, que foram construídos por uma razão, que terá passado despercebida a quem tomou uma decisão tão infeliz, que afinal é de tentar apagar a História...


terça-feira, julho 19, 2016

LUSÍADAS REVOLUCIONÁRIOS



Quando o Capitão Henrique Galvão se apoderou do Santa Maria, naquele que terá sido o primeiro desvio dum navio por causas políticas, em 1961, houve quem tivesse "adaptado" duas estâncias d' Os Lusíadas, como se pode ler abaixo.
 
“AS ARMAS E OS GALVÕES ASSINALADOS,
QUE DA MAIS ORIENTAL PRAIA VENEZUELANA,
POR MARES JÁ DANTES PIRATADOS,
PASSARAM AINDA ALÉM DE COPACABANA;
EM PERIGOS E GUERRAS ESFORÇADOS,
MAIS DO QUE PERMITIA A FORÇA HUMANA,
ENTRE OS NAVIOS AMERICANOS EDIFICARAM
NOVO GOVERNO QUE TANTO SUBLIMARAM.

E TAMBÉM AS MEMÓRIAS GLORIOSAS
DAQUELES DELGADOS, QUE FORAM DOMINANDO
O VÍCIO, O MEDO; E OUTRAS COISAS ESCANDALOSAS
QUE O MUNDO PORTUGUÊS ANDAVAM DEVASTANDO,
E AQUELES QUE POR OBRAS VALEROSAS
SE VÃO DO CRU ANTÓNIO* LIBERTANDO,
CANTANDO ESPALHAREI POR TODA A PARTE,
SE A “PIDE”ME DEIXAR, E EU TIVER ARTE.



domingo, julho 17, 2016

A EUROPA DOS BANQUEIROS



Pelo que vamos constatando, grande parte da crise que estamos a atravessar desde 2008, foi causada pela ganância dos banqueiros, primeiro nos EUA, e logo de seguida no velho continente, onde o problema subsiste e ameaça os países com economias mais fracas.

Problemas como o da Irlanda, da Islândia e a Espanha, que pareciam estar resolvidos, afinal apenas revelaram outros, em Portugal, na Itália e até na Alemanha, para falar apenas nos que as notícias vão anunciando.

Na realidade os banqueiros e os seus homens de mão foram amealhando lucros, muitas vezes inexistentes na realidade, mas que estavam nas contas marteladas pelos gestores maravilha que contratavam, e quando as coisas estavam já mal paradas (prestes a rebentar), concederam-se créditos sem garantias a muitos amigos e algumas clientelas, que obviamente nunca poderão ser pagos.

Os banqueiros e os seus homens foram afastados por terem levado os bancos à falência, mas as contas por liquidar não foram entregues aos senhores banqueiros ou aos seus gestores, que continuam a viver à grande, antes foram para ao Estado, que como todos sabemos, são os cidadãos que nunca beneficiaram dos anos de ouro da banca, que encheu os bolsos a tantos accionistas e a tantos gestores.

A Europa em que estamos “enterrados” é a Europa dos banqueiros, para os quais o dinheiro nunca é mal empregue, ainda que seja à custa do trabalho e dos impostos dos “endividados” que não fazem parte das preocupações dos eurocratas.


Flor by Palaciano